26/09/2010

atenciosamente


Pode ser egoísta ou até um pouco insano e errado, mas as vezes tudo o que a gente precisa é daquele amigo que diga “tudo vai ficar bem” mesmo que as coisas realmente não fiquem. Mesmo que ele não acredite verdadeiramente em tais palavras, mesmo que ele esteja vendo o fim da tua alegria e não suporte mais o quanto tu reclama o tempo inteiro. De um jeito ou outro, é sempre bom ser cuidado.
Em muitas épocas a gente dá mais do que recebe, e trata de cobrar tal atenção quando é a nossa vez de desanimar. É impossível ser sempre feliz, estar sempre em prontidão pra abrir um sorriso e os braços pra um abraço. É impossível medir de tempos em tempos a tua alegria, porque muitas vezes tu passa dias tristes ou horas, ou minutos. Não importa, o que importa é que os outros percebam. É que te abracem, te sorriem, te consolem. O que importa é que te mostrem que é assim mesmo que a vida é: altos, baixos, médios. Que é desse jeito mesmo que a gente tem que levar o tempo. Que é dessa forma mesmo que a gente aprende a ser feliz.

20/09/2010

O porto


E mais uma vez a gente passa por esse mesmo porto, a gente escuta as peculiares histórias de quem teve uma vida inteira pra aprender a ser feliz, e mesmo assim ainda escorrega em lágrimas toda vez que vê-se perdendo alguém ou relembra alguma derrota. E mais uma vez eu vejo nos teus olhos aquela velha tristeza de quem já é velho de mais praqueles incômodos e de quem pede socorro pra não enlouquecer dizendo as mesmas frases de quem não suporta mais sofrer da falta.
Por outro dia nós passamos e contentes exibimos sorrisos de quem queria poder sorrir mais, e de quem espera que o futuro reserve quaisquer surpresas que tragam mais uma luz de oportunidade, de quem não acredita na existência de um único túnel pela vida inteira. E em meio aos encontros e desencontros que nós temos passado, outrora tristes e agora alegres, nós observamos o mesmo rio que cruzava pelas tuas margens e que recebeu tuas lágrimas vistosas.
Era só mais um conto que tu escrevera procurando uma linha de escape pra qualquer dor, que já não tinha uma definição certa porque já fora muito tempo embora nesse nosso esgotamento. Porque não havia mais chance de tu me olhares e dizer “Tudo bem, isso já vai passar” porque em tantas outras vezes estávamos nós no mesmo porto esperando o mesmo barco que nos levasse embora com essa sede insaciável por cura dos nossos antigos problemas, e só o que temos visto é esse mar grande de mais pras nossas fracas braçadas. Só o que temos engolido é saliva que vem secando, e na sede de qualquer resolução temos perdido as gotas feitas de esperança que formaram esse mar enorme, que insiste em nos afogar nas nossas velhas tristezas.

25/08/2010

tão mais simples


Havia algo nas pessoas que as tornava diferente de mim. Ou fosse o contrário, quem sabe. O maior prejudicado nisso tudo era um mundo, pequeno de mais. Um mundo que faz de cada pessoa algo individualista de mais, grande de mais para que se possa caber dentro dele, e há uma insanidade na lógica que se cria quando se mata. Nós temos matado, agora mais do que nunca, e tentado transformar nossas próprias vidas em felizes. E o que há de mais simples que isso?

10/08/2010

anormal


Por vezes esconde embaixo de um tapete imaginário os rancores e desafetos e exibe um sorriso escancarado, porém falso. E, por vezes permite nas noites de insônia, nas tardes sozinha, nas filas dos bancos ou andando pela rua, que esse tapete desapareça, deixando expostas todas as marcas dos tombos e arranhões que já levara, coisas que demoram um certo tempo até se emaranharem em meio aos outros papéis amarelados das lembranças e sumirem definitivamente. Reserva também à tais situações que se perceba seu gosto por tudo aquilo que não é normal, suas histórias, o que é mau visto e que ela, da mesma forma insistente, opta por fazer e as escuras olheiras sob seus olhos que se originavam nas outras noites de insônia que passa lendo.
Muitas vezes, o que fazia cessar seus anseios, nem que por breves instantes, era escrever o que a preocupava nem que fosse somente pra guardar para si, mesmo que nunca mais voltasse a ler tais papéis.
Talvez não tivesse nem ao menos uma vocação, já que nem sequer podia se adaptar ao que não via como certo, tendo sempre um desejo de melhorar as coisas, no seu ponto de vista. Não poderia ser moldável, adaptável, nem friamente calculista. Poderiam pedir a ela para que fizesse qualquer coisa, principalmente pelas amizades, mas menos deixar de ser quem era.
FIM

27/07/2010

Covardemente falando


A gente aprende a ganhar umas pessoas
E perder outras
Nos ensinam que chorar é feio
E nós aprendemos a ser orgulhosos
Tem sido pouco, pequeno e inconstante
Uma morte à longo prazo
Esperar que nossos desejos se cumpram
Mesmo que todos nos insistam em negatividade
Nós mudamos tanto sem consultar uns aos outros
Nós nem ao menos somos o que desejávamos
Pare de apontar a arma contra sua cabeça
E dizer que sabe o que está fazendo
Você sabe onde encontrar apoio,
Sabe que eu posso ser seu ombro amigo
Apenas desista de possuir a esse fim
Existem grades invisíveis nos cercando
Ninguém pode ser feliz sem essa liberdade
Que perdemos encontrando nossas convicções
É mentira quando dizemos que os ideais nos libertam
Só agora você pode ver o que essa inteligência
E as suas palavras mais duras
Puderam fazer com você
Ah, por favor, para de crer em lutas
São só guerras sem propósito
Desista de ser só você, contra o mundo
O mundo está errado, mas é uma pena
Só nós sabemos.

26/07/2010

repleto


O tempo que você passava deitado
vendo as estrelas que brilham no seu teto no escuro
E as súplicas transparentes em seus olhos para que não te deixassem sozinho
Aquela canção que você tocava e hoje nem ao menos tenta
Como você pode deixar que tudo isso acabasse assim?

Você pode mudar de vida, e crescer mais do que os seus amigos
Você pode se sentir adulto e mudar todas as companhias
Mas e você está realmente feliz?
Não eram melhores os tempos de brincadeira e sem responsabilidades?

O que volta só vem na sua memória,
Nada mais toca seu coração
Você não deveria ter se permitido mudar tanto
o tempo tornou impossível o que deveria ser nosso presente

06/07/2010

sem lucidez


Nós andávamos por aquelas ruelas, desprovidos de vergonhas e temores, desprovidos de ódio. Andávamos com as mãos coladas, como que sem perceber, e riamos como se nunca tivéssemos visto aquela velha cidade. Já tínhamos, muitas vezes. Mas era como se agora as coisas ganhassem cores. E como não? Éramos só dois curiosos, de mãos juntas intencionalmente, caminhando sobre as velhas pedras daquelas pequenas ruas, que já presenciaram tantas guerras e desafetos, mas ali estavam elas, tão mais bonitas à nossos olhos, graças a nossas breves presenças. Como se pudéssemos colorir tudo, pelo simples fato de que nossos olhos não poderiam ver nada triste. E quer algo mais tão inocentemente egocêntrico do que nós, tão desprovidos de ruindades e malícias? Porque só o que víamos eram cores, e tantas cores, como se estivéssemos no carnaval em pleno outubro. Era como se o mundo inteiro tivesse resolvido nos amar, no mesmo instante. E como nos sentíamos amados, e amáveis. Pois era disso feito o amor, de uma breve ilusão perfeccionista. E é uma grande pena que houve a lucidez para nos acordar daquele sonho, essa lucidez que veio ao longo dos anos. Nós crescemos. E quer coisa pior que isso? Perdemos o que de maior valor existia em nós, e eram aqueles sonhos simples, tão fáceis de sonhar.

05/07/2010

encanto


Será que não gostam mais do trágico? De transformar a dor no outro em algo cômico e a própria insanidade nas piores tristezas? É isso sim, que atrai umas pessoas às outras. Possuírem as mesmas tragédias e peculiaridades. como se o melhor meio de transporte à felicidade fosse a dor, e vice-versa. como se fosse um breve ciclo vicioso encontrar no outro a própria dor, e necessitar do outro para encontrar a própria alegria. E não seria isso, a coisa mais cômica e que ninguém vê pra não perder-se o encanto dos encontros?
Na verdade, não existem “encantos”. Existem formas breves de transformas as coisas simples em alegres, e formas demoradas de revertê-las. Porque as pessoas não querem ver o que tiraria o encanto do outro, e se escondem atrás das farsas. Só mais uma coisa: se quer algo perfeito, não se relacione com humanos.

29/06/2010

barco


Toda vez que eu jogava aqueles barcos feitos de forma desajeitada no mar turbulento, eu sabia que eles não voltariam. E ficava feliz por darem a eles um destino melhor, do que permanecer comigo e com a liberdade que nunca poderia dá-los. Eu sabia que não poderia ir junto deles, e sabia que eles viriam coisas muito melhores, mesmo estando longe de mim. Eu me lembro das pessoas rindo de mim, mas não me importava. Era como quando eu corria pelos campos do meu avô, que hoje nem o pertencem mais. E hoje, nem eu mesma pertenço a mim, por mais contraditório que isso pareça ser, já que eu nunca fora como sou hoje, já que nunca havia mudado dessa forma.
Eu me lembro de quando eles nadavam em círculos pelas ondas, com movimentos sinuosos, que exigiam total concentração para que eu não perdesse-os de vista, até que eles afundavam e não eram mais vistos. Eu gostava de acreditar que estavam em um lugar bem longe, onde não houvessem banhistas defecando e nem pessoas gritando. Um lugar azul, ao qual eu gostaria de pertencer.

27/06/2010

saudade das certezas


Sinto saudade de quando eu era só uma bolinha quente na barriga da minha mãe. E de quanto eu tinha oito anos e tomava coca naquele copo da Barbie. E do café com bolo da minha avó, que hoje ela não prepara graças ao reumatismo. E das tardes brincando em meio a horta de morangos, e todos os chingamentos quando desastradamente se acertava um deles.
E agora o que foi feito de mim? No que me tornei? Alguém cheio de egoísmos, temores, orgulhos. Eu preferia todos aqueles sorrisos sinceros, e as lágrimas que nunca saiam, porque não havia necessidade, não havia tristeza.
Nunca fora mimada, ao mesmo tempo de que nunca precisei. Eu não precisava de nada, e hoje tudo me parece tão pouco, como um punhado de grama em um campo tão extenso. Eu tinha tudo, minha casa da barbie e meu jogo de botão, que era sagrado à todo sábado. Será que você sabe? Eu prometeria, se pudesse, mas não posso. Não é possível suportar essa saudade, uma saudade enorme, de tudo aquilo que não conheço, de tudo aquilo que não vivi.