15/01/2012

Faz Parte do Teu Show


Você deseja que talvez eu cresça, seja alguém melhor, faça finalmente algo por mim mesma. E imagens instantâneas rolam na minha cabeça tuas entrando num bar de olhos vermelhos e aquele jeito desolador de procurar presas sempre fáceis de vestidos colados. Você sentando como quem não quer nada ao lado do bar e tragando fundo teu cigarro e esperando que elas se aproximem pra serem devoradas. Do tempo passando lento e uma garota estrategicamente desequilibrada num salto quinze rindo alto e encostando a bunda magra na cadeira do teu lado. Da tua mão pousando na perna dela, da guria loira que ri tão alto e é tão feliz que me dá nojo. Ela dizendo um monte de besteiras e a tua cabeça balançando afirmativamente e da tua mão indo mais longe. E tudo de repente se apaga e você é um cara sóbrio de olheiras fundas me dizendo que todas as músicas do Cazuza foram escritas pra você. E eu faria músicas pra você se soubesse fazer algo além de escrever histórias absurdas sobre como você sabe me decepcionar com as grandes mãos pousadas em pernas grossas. Agora eu não quero nada além de ser alguém insignificante que não consegue dormir e está ao mesmo tempo cansada e chata e repetitiva de mais pra esse tipo de drama. Eu te juro que cresci mas achei isso tudo ridículo e ilusório de mais pra me pertencer. Quero encolher e ser uma criança estranha do primário que não se encaixa em roupas largas no meio das crianças tão alegres das outras classes. Quero ser eu pequena e você pequeno antes de pegar o carro e correr com os teus amigos com a idade mental da criança que eu quero ser. Quero parar de te desculpar todas as noites que não são sexta-feira e esperar que você só dessa vez pare de ser o vilão das histórias que eu mal sei contar. Quero parar de reclamar você e calar pra sempre minha vontade de sumir sem deixar rastro dessa mesquinhez que é viver sozinha. Nunca mais ver você inocentemente sentado, sério e discreto e lembrar da tua voz rouca proferindo coisas que essas putas nem entendem. Quero nunca mais querer que a tua vida boemia te mate e que numa noite dessas teu carro bata fatalmente num poste. Minto, quero que você morra a próxima vez que se desculpar por ser você e só por isso me fazer ser assim tão louca.

30/12/2011

O teu jeito


Vou entrando pelas portas abertas, e seguindo por corredores escuros e linhas tortuosas me desvencilhando de qualquer dor antiga, sentimento obscuro ou tristeza puramente pensante que nas tardezinhas me tomam pra estar só dessa vez pronta pra te encontrar. Sigo de boca e olhos semi-serrados contornando bairros e ruelas pobres de guris descalços com algum sentimento auto-depreciativo me acusando louca e desesperada.
Me dispo de discrição, com os olhos correndo por todas as janelas e sacadas e frentes-de-casas sabendo que em algum canto dessa cidade suja e discrepante um cara magrelo dono de alguma estranheza sorri em risos tristes. E ignoro o alinhamento de dentes brancos, o lineamento perfeito de lábios grossos, a cor de oceanos fundos de olhos alheios. Observo sem nenhum interesse os corpos bem-feitos e trabalhados correndo por essas ruas. Admito também passar despercebida. E sorrio timidamente porque as coisas seguem todas perfeitamente em seus lugares.
Ando o mais rápido que posso sem deixar passar nenhum detalhe dos prédios mal planejados, sobrados descascados e varais estendidos de roupas simples. Corro os olhos vorazes pelas esquinas e estreitas faixas de pedestres, te imaginando com sacolas de supermercado distraído de mais pra pensar em um encontro súbito, desequilibrando tua rotina de comentários sarcásticos destilados em redes sociais e sonos prolongados por tardes inteiras.
Te imagino em becos com garotas ou em lojas de material esportivo e solto uma risada involuntária. É que é tão o teu jeito estar trancado agora em casa vendo algum documentário excêntrico sobre a reprodução de algum bicho só descoberto no século passado ou tentando bater o recorde de cara que puxa os piores assuntos pra conquistar alguém. É tão teu jeito nunca ser encontrado por mim por estar ocupado de mais não se importando nenhum pouco com as convenções e cerimônias de todo o mundo.
É tão meu jeito seguir te procurando e suando e correndo nessa cidade ridícula de tão pequena e vulgar, onde comentários maldosos se alastram com a rapidez da luz. É tão meu jeito perder um pouco do ânimo com cada cara bonito e burro de mais que atravessa o meu caminho nas faixas, ruas e esquinas confiante de que merece todas as garotas burras e bonitas do mundo, enquanto você se esconde estranhamente lindo em algum canto por aí.

19/12/2011


É que sempre lembro de ti no banco do carro contabilizando as compras numa cidade de neve com a tua família, o preço do chocolate suíço, o hotel que tem gente famosa, a decoração dos lugares certos, teus novos sonhos de consumo. E que você não se referia a minha vida ou perguntava de vez em quando educadamente se eu já tinha ido pra tão longe. Me lembro de sermos tão opostos porque eu juntava uns trocos pra estudar e tu vivia com tudo aquilo que eu sonhava pra mim daqui a trinta anos. Me lembro de sermos tão iguais juntos no colchão que vale o salário de um ano todo do meu pai. Lembro que eu ainda achava em você alguma coisa impossível de existir em outra garota e você achava legal gostar de um cara como eu. E da manhã seguinte ao nosso retorno, dos teus pés entrando calmos na banheira, tuas mãos chamando a água quente, teu óleo de banho competindo no meu nariz com o cheiro de café. Você saiu enrolada na toalha e fez aquela mesma cara de “ops” quando tua roupa toda estava sob nossos pés pela primeira vez, fingindo ser bem-comportada de mais pra ter um cara vidrado nas tuas pernas deitado na tua cama. Lembro de você fazendo panquecas pra tentar impressionar um bobo impressionado e da tua empregada perguntando que bicho te mordeu. E do último fim de semana você se esfregando num cara qualquer pra me mostrar o quanto sou louco por você. Lembro de você virando dissimulada e me ligando tarde da noite pra saber quem é ela. Sendo insegura a ponto de duvidar que “ela” vai ser sempre você. De quando te disse pra acabar, do teu choro no meu colo e do meu choro mudo pelas ruas do teu bairro. Lembro e vou lembrar de você pela última semana em que ainda éramos nós.

13/12/2011

Emoção é pra mulheres


Vi você do outro lado da rua querendo me impressionar, andando e juntando bem as pernas, como se quisesse me convencer da tua magreza já explícita com o aparecimento dos ossos. Vi você do outro lado e querendo chegar mais perto, já me impressionando porque você se veste normalmente, tem uma aparência legal e ouve música boa. É meio obcecada por uns caras estranhos aí, é contra opressão, não tem nenhum tipo de preconceito, como deixou bem claro quando não me manifestei pelo sim e você jurou que eu era gay. E entendi que você já estava cansada de caras gays, mentirosos ou mal resolvidos quando o assunto fosse amor. Te peço desculpas por todos eles, pela minha raça que não olha onde pisa, não vê o que estraga. Te peço desculpas mas não sei se cabe a mim mudar esse quadro.

Você segue me olhando meio de canto e jurando me querer do lado. Não que a tua timidez te permita qualquer dessas declarações, é que tu sabe mesmo falar pelos olhos. E eu te olho bem de frente, para teu rumor das faces e desvio do olhar. Me divirto porque de alguma forma tinha um pouco de ti lá no início, me atrapalhando e engolindo palavras com medo de perder uma guria.

Um dia pedi que você de alguma forma fosse embora sem nunca ter estado porque falar de emoções fica mais fácil pra mulheres. Então você me analisou de todos os ângulos possíveis procurando em algum lugar vestígios de contradição, mas eu seguia sério não querendo te alimentar ilusões. E naquele dia você foi embora como hoje também está indo tão magra e convicta de que uma hora ele vem, se não for comigo vai ser com outro.

Porque sou alguém que pode mudar de idéia no dia seguinte e te deixar repousando feliz entre os lençóis. Sou quem foge de um compromisso não por querer outras, mas por não saber o que quer. E quem te omite tudo isso porque você é a melhor coisa que nunca me aconteceu e que vai embora crendo ser eu o mais covarde dos homens. Espero que você saiba disso e me odeie imensamente apesar de amar em você todas as coisas que nunca vou saber achar em mim, como essa entrega sem medo de ferimentos. É que pela primeira vez, quem tem medo é o caçador.

05/12/2011

Nossa história inexistente


Antes de tudo me apaixonei pela biblioteca do teu quarto que só tem uma cama estreita e essa pilha mal cuidada. E vi que você era um cara desses que valem a aposta e o pulo, tua simplicidade uma máscara pra essas coisas todas, um jeito de impressionar garotas pouco impressionáveis. Me perguntou o que eu mais queria conhecer no mundo e nem julgou nem nada que fosse algo do mais rico e bonito da Europa. E disse que minha beleza era simples e já cansou das coisas complexas. Disse que eu devia gostar das belezas também simples e não de ouro diamantes dinheiro ou caras esnobes. E uma infinidade de coisas que não cabem na memória mas merecem meu reconhecimento. Foi assim que você ganhou minha confiança nos primeiros trinta minutos de conversa e eu nem queria mais conversar. Você mantendo o ar sério e compenetrado nas palavras todas certas e eu querendo logo o próximo estágio. E contando como enjoa em viagem e teus sonhos com águas turvas e teus livros te chamando na estante. Daí eu te falei que tava com medo do que ia ser no próximo ano e que as coisas eram rápidas de mais desejando tua rapidez. E minutos depois só te via tagarelando algo sobre romances serem semelhantes e brigas valerem uma história. Me perguntou o que ia fazer da vida e eu escondendo em um não sei que queria escrever. E sabendo que as histórias que valem mesmo são as reais. Eu não devolvi a pergunta e dessa vez éramos silêncio porque alguma coisa tinha dado errado e houve um rompimento em algum lugar da história sem que nada ainda houvesse se encaixado no devido lugar. Agora queria ir pra casa e abrir uma página do Word e escrever que a minha admiração é o maior afrodisíaco. Mas também precisa de imaginação. E da ponta da cama minúscula você minúsculo se perguntando se eu podia ser assim tão vazia. E eu me perguntando em algum lugar por dentro porque é que não conseguia dizer nada do que realmente importa. E depois eu destrancando e dizendo ser você o cara mais legal por quem eu nunca me apaixonei porque diz tudo tão por dentro que não vale a pena pensar. Posso jurar ter ouvido teu pensamento perguntando de onde tinha saído aquela louca e o motivo de tanto alarde. E você certamente ouviu meus passos na escada e viu minhas complicações se dissolvendo todas pela rua sendo arremessadas na calçada e atropeladas por carros rápidos de mais. Talvez um dia você leia nossa história que não existiu e foi quase briga, bem do jeito que você gosta.

03/12/2011

O problema não é você, sou eu


É que você tem uma ex-namorada modelo e outra que só sabe rir de tudo. E eu sou quieta de mais ou, pior de tudo, inquieta com as mãos excessivamente compridas. É que você sempre convence as garotas rápido de mais e eu quero discutir pra depois calar e quando calo não me dou por vencida. É que sou irritante na minha ironia simplória que quer fazer graça e só consegue provocar. E um dia eu decidi que não ia mostrar pra ninguém que tinha medo e só quem sabe disso tudo são umas folhas riscadas e uns caras desocupados.

O problema é que me exponho de mais e já tentei ser menos mas sou sempre assim. E te estranho, te machuco, e quero deitar no teu peito e esquecer quem eu fui ou sou até o momento de desistir de estar contra todas as coisas inocentes nas quais eu vejo armas mortais. E eu paro de repente e te encaro séria porque você me intriga mais que todas as coisas que habitam a terra até ser um outro dia. De repente eu sei que tudo passa por mim e eu estou sentada observando e meus olhos são famintos mas meu corpo desajeitado. E eu quero tanto as coisas que quando as toco inevitavelmente alguém se machuca. Não entendo de delicadeza e desejo as belezas poentes. Não quero as coisas pra sempre, eu digo, mas repentinamente aparece alguém que me faz jurar que desistir não faz parte do meu plano pro outro dia. Viro a noite e o sol anuncia quem é a grande mentirosa. E eu digo tudo bem, tudo passa e na noite passada eu jurava ser outra pessoa. Meu problema é comigo e não estou mentindo, deposito confiança e carrego nas mãos a culpa de esperar e querer pra sempre de mais. É que vou ser quem reclama critica e suplica por atenção ou vou largar todas as histórias e ser eu. Quando eu descobrir o que isso quer dizer.

23/11/2011


Faço sulcos na realidade e nas valas deito minhas fantasias. Observo-as tomarem forma e cor, mesmo que muitas vezes não desgrudem do irreal, apesar de bem juntas à realidade. Sonho é realidade provisória que pra mim é pra sempre, preciso lembrá-los pra ainda ser eu. Quem vive só do concreto quando se perde do corpo vira nada. E quero ir embora ainda assim sendo. Não me interessa que pra ser lembrado ou esquecido, amado ou odiado. Não me interessa que odiando em mim os defeitos e fragilidades com o dedo apontando a fraqueza do outro. Não importa que cheio de defeitos, e sendo, portanto, humano.

Só não vou ser burro de fugir do clichê e fugir da idéia. Negar a dor, assim negando a verdade. Rejeitar a franqueza alheia pra evitar novos sulcos – agora em mim. Não vou interromper a explosão pra não ter de contabilizar os feridos e limpar as ruas que nunca deixam de ser imundas. Não vou abandonar a crítica pra não arcar com solidão. Quem diz o que quer, sente o que não quer. Mas não deixa de sentir.

20/11/2011

Você e minhas verdades


Eu me irrito com você falando amenidades, prefiro as profundidades. Aí você fala que não entende as pessoas que têm a capacidade de dizer que amam, só porque sentem prazer ou gostam de estar junto. Que amor é mais que isso. E quando percebe tá fazendo a minha vontade e falando de coisas sérias, você que sempre brinca. E eu solto uma risada porque me acostumei com a tua graça, e vou dizer que só o que mente mais que o te amo é o pra sempre. Talvez você concorde, talvez ache uma brecha qualquer na resposta pra me contrariar, talvez fique em silêncio e espere minha próxima observação com olhar crítico. Talvez você um dia me culpe por estar sempre um passo à frente dos nossos diálogos e querendo prever os caminhos obscuros da tua mente até tuas respostas sempre inteligentes. Talvez você dispense meus elogios à tua capacidade criativa e teu perfume que misteriosamente nunca morre no meu travesseiro. Talvez eu comece a falar no instante seguinte e depois de pequenas pausas tenha sempre novas idéias porque sempre falta alguma coisa. Talvez você me odeie por ser essa eterna insatisfeita, com você ou não. Ou essa totalmente insatisfeita sem você. E critique meu jeito repetitivo de declarar o que eu sinto nas coisas subliminares, num toque de braços e olhar inseguro. Talvez você critique minha mania de mexer as mãos o tempo todo e observar as roupas das pessoas, o que é puramente um instinto feminino. Talvez só você veja a minha maldade para com as pessoas mesmo sem conseguir odiar ninguém e meu jeito de te odiar te amando. Talvez você desconsidere meus temores de rua escura e de morrer pras pessoas que eu dependo para estar viva e quando tranco e não consigo fazer um elogio. Você pode repetir aquele comentário de que sou boa pra criticar e péssima pra agradecer, fico sem jeito e me morre o lado criativo. Só porque você é assim sempre. E você diz que eu também tenho talento mesmo que eu escreva tão pouco e pra ninguém. E que eu me sinta sozinha nas multidões e tão bem no meu quarto quando for noite. Até porque esse é meu motivo pra te temer e querer fugir do teu olhar analítico por me conhecer e me ver tanto mesmo me vendo com pouca freqüência. E vou fingir que as coisas vão bem quando distante porque você vai me perdoar quando eu disser que tudo não passa de um jeito de mentir pra me defender das tuas idas em cada olá. E pode ser que eu tenha vergonha de cada pensamento meu a teu respeito, e que procure incessante verdades que não deixam de ser obscenas. A mentira às vezes sabe ser tão pura porque o mundo com lente de aumento é sujo mas vou correr o risco porque já cansei das ilusões. E pode ser que isso te desagrade assim como eu, e que você volte a falar amenidades e finja que as coisas não acontecem assim tão rápidas e fortes. Talvez você finja e caia no meu conceito, mesmo que nunca vá perder o lugar que tem na minha cabeça, já que em mim é ela quem sente.

30/10/2011

Promessa cumprida




Agora você sabe que quando eu disse que ia embora, foi pra valer. Você viu, a gente viu, eu nunca mais voltei, e, pra ser sincera, provei até pra mim mesma porque jurava uma recaída qualquer graças à rotina. Fiquei quieta e parada e provei pro mundo, não só pra mim e pra você, que eu sabia me controlar, respirar, contar nos dedos até o desespero evaporar. Toda vez que quis gritar foi pra te provocar, pra me decepcionar, tenho duas por dentro, você disse, eu agora concordo. Uma parte minha me fere e toda vez que a lembro tenho arrepios, e o pior é que só você sabe provocá-la com suas reclamações descompensadas e defeitos apontados na cara de todo mundo. Com sua sinceridade de dois gumes que te faz o mais legal dos caras e o inimigo que qualquer um evita ter. Culpa sua? Nenhuma. É só seu jeito de descontar no mundo suas frustrações de quem tem tudo a troco de nada e quer mais e me quer tão pouco. Estraçalhei nos últimos dias uma parte minha que só existe por tua causa e nem mais te vi, mas quando te vejo aperto o nó bem firme. Dei dois nós cegos que só afrouxam nas noites de sábado que eu passo em casa, quase inexistentes, no meu ódio que é também loucura que é também amor. Quem sabe foi até minha mente que inventou esse pedaço meu pra me ocupar o tempo, pra te chatear, pra acabar com a gente antes de você resolver ir embora. Quem sabe foi só uma forma de me defender das suas eternas partidas que começaram antes da gente começar, no primeiro dia eu já sentia saudade, aprendi a ser vazia até quando preenchida. Amor é fácil de sentir, o que essa parte minha provou é que só se sabe que é pra valer quando o ódio aperta. Quase sufoca. Inventei casos e mil amores mas ódio só tenho por você. E hoje nem te sinto em nada, não está mais no café amargo e não existe você em nenhum filme preto e branco meloso de atriz linda com bunda enorme. Ah, você adorava os meus romances. E até o meu único terror que era te ver na companhia de mulheres já acabou, se enterrou, agora posso falar sobre tudo isso porque tudo é tão sem gosto quanto meu café da manhã que com você era sempre briga. E às vezes o sem gosto me mata, vou confessar. Só não quero mais ser perigosa, cortar suas roupas e jogar você pela escada, te ameaçar com faca da cozinha, nada disso, tudo perfeitamente no lugar. Eu dentro de mim, sem nenhuma surpresa, sem nenhum outro eu. Mas de vez em quando... Só às vezes quero eu de volta. Só às vezes quero você. E é sempre tão de vez em quando que eu nem noto, me pego divagando e sentindo saudade... Ou nem isso, você sabe, saudade e nostalgia tem suas diferenças, nostalgia é o que se sabe inviável mas mesmo assim se sente. E saudade vem sempre carregada de esperança, carregada de ódio, mas ódio não existe, né? Ódio já foi. Controlo tudo, enquanto você controla o olhar na expressão séria, nunca desce do meu rosto. Fico contando os pontinhos brilhantes do fundo do teu olho, é bem normal, sem tremores nem neuroses, com o auto-controle que eu não conhecia. Nunca soube mentir e sempre fui de falar de mais, sempre me entregando, comprometendo tudo em troca de tão pouco. Sempre juntando histórias soltas e trazendo pro mesmo contexto, te entediando com minhas filosofias de vida nunca verdadeiramente aplicáveis. Essas histórias estão fora de moda, você ri sempre que eu digo assim, como se as coisas precisassem estar inclusas na moda pra existir. Não precisam, já notei. Você me pedia pra parar de contar histórias da infância, essas que começavam do fim, assim como se eu nunca pudesse pegar nada pela raiz. Agora te pego pela raiz e já te cortei, arranquei fora porque não vai mais nascer, já morreu, sumiu de vista. Eu sumi também. Porque eu prometi e agora tenho palavra, nunca tive, te ligava no meio da noite mesmo quando jurava não te acordar, te deixar trabalhar sossegado, te deixar... No fim, eu deixei mesmo.

29/10/2011

Caçador de ideias


Tenho feito tudo errado. Mas sigo me justificando, porque sei que não é por mal, é por querer dizer tanta coisa e no fim não dizer nada. É ver os pensamentos dançando todos, como em uma grande festa, como num carnaval, levantar o braço de sorriso esperançoso no rosto e fechar a mão bem pertinho de um pedaço que nunca se toca ou se aprisiona. Desse modo, eles nunca me satisfazem e são tão ralos que não valem à pena nem pra tapar meus silêncios que deveriam se justificar pela paisagem interna. Ela tem sido tão óbvia, mas às vezes com nuvens tênues do insensato. Não posso reclamar, às vezes tenho a sorte de receber uma pequena iluminação de loucura. Os loucos são infinitamente mais espertos, até porque têm da inteligência que não se demonstra, até porque são julgados loucos, mais loucos do que aqueles que crêem-se superiores e sensatos.
Eu insisto, de qualquer modo, porque preciso cuspir uma parcela do que penso pra não viver atordoado. Não se pode dizer que não tento, junto memórias e tudo que observo e cortejo a inspiração. Que muitas vezes se nega a comparecer. Mas sei bem, que de dentro de uma caixa sai qualquer coisa, caixa escura onde não se identifica onde começa um pedaço e termina outro. E insisto em descer ainda mais o braço e seguir na busca. Pode haver lá dentro uma lâmina, uma pluma, um excremento, uma flor morta, um punhado de urtiga, um punhado de dor. Tudo complementa a experiência. A inspiração pode ser devastadora assim como irritante e incômoda, mas se não desse modo, como chegar ao produto final?
A ideia às vezes vem fragmentada, às vezes chega solta, desprendida de um contexto. Às vezes a ideia machuca e eu a descarto. Às vezes eu a desprezo e então a culpa é minha, porque dela se pode esperar qualquer coisa, e de mim só se pode querer o aproveitamento. Mas descarto porque também me pertence a covardia. E sou, então, aquele que procura sem reclamar cansaço, sem reclamar eventuais machucados ou dores latejantes em feridas antigas que são resgatadas nesse processo, mas que quando percebe a exposição logo esconde e diz ser outro. Porque pra ser si próprio é preciso mais coragem que pra interpretar, enfrentar platéias, vaias, críticas. Difícil mesmo é quando não consta a máscara no uniforme de trabalho.
Pra ser de verdade deve haver um pouco de contradição, confusão e medo. Pra ser feliz também é preciso ser triste, mesmo que não seja possível ser sempre o desejado. Já pra ser sempre igual só se precisa de ensaio, costume, rotina. Pra ter uma ideia tem que se ter coragem, mesmo que no fim negação, mesmo que vergonha. Mesmo que frustração pela expectativa exagerada, pelo sono perdido, pela noite virada. Mesmo que no fim não valha nada, quem sabe sirva de experiência, seja só mais uma curva da estrada.