18/04/2012


Os faraós dançam, os poetas gritam e Deus chora em um canto da sala, mas todos estão mortos. A poesia e a religião estão sepultadas ao lado de todos os românticos e seus mundos feitos de nuvens, de onde enxergam tudo e tocam em nada.
Num poeta há qualquer coisa de desesperador, uma urgência de quem sabe que morre todo dia aos poucos e não há chance de reversão. Os poemas silenciam pedaços inteiros de ideias, calam a parte mais bela das paixões, pois o ponto que se pinga em uma frase inconclusa leva o leitor a conclusões ainda mais lindas. Poeta é um mágico que tem como truque levar a outra dimensão - que só fica interessante quando desenhada em palavras concretas - o homem seu igual que não tem tempo de voar. Mas no fundo todo mundo carrega poesia, um interesse pela pureza das coisas que não se sente naturalmente. É preciso imaginar. Cambaleamos pelo deserto das ruas a procurar inúteis certezas na banalidade das coisas que não nos preenchem. No fundo de todos os mistérios, moram nossas criações e medos pra afastarmos nós próprios do quão assustador é atingir um objetivo, e ter um dia um vazio que já foi preenchido. Mora em toda grosseria um amor mau acolhido, um medo de ter e perder.

13/04/2012

Abandono em cada canto um pedaço meu que não foi verdade. Têm monstros que moram em mim que nem ao menos conheço, e anjos meus que se escondem pelas carnes. Todos eles têm medo dos meus olhos atentos, e tenho eu ora medo de descobri-los, ora vontade de descobrir-me. Se nem bem eu sei o que me cerca e me atormenta, tampouco o que me habita, como ouso pedir que me entendam? Por que insisto em querer que me leiam? Por que não calo esses gritos incompreensíveis que abandonam minha boca de encontro ao eterno buraco do ininteligível?
Procuro nos meus guardados pensamentos que consolem e tudo se confunde cada vez mais. Escrevo por mim, guria que no espelho me parece deslocada de uma realidade presente, pelos meus tormentos, pra te esquecer. Te eternizar é mero acaso.
Escrevo pra fugir do tema, pra não ter foco, pra ter a cara que quiser e não essa massa pálida de olhos grandes e fundos sem saber por quê. Escrevo pra me guardar um pouquinho a cada dia antes de submergir no mar do tempo. Quero deixar-me por aí mesmo sem importância, mesmo sem caber no mundo de ninguém.

A vida das baratas e uma crítica qualquer


Não tenho inspiração, é tarde e o sol vai se reduzindo enquanto em outro lugar do mundo é manhã cedo. As pessoas vivem ao redor da vida umas das outras, penso, vão a festas, mostram-se empolgadas e são tristes. Eu não sou ninguém e aguardo calmamente que os risos que são bolhas de sabão explodam e me deixem dormir. Sirvo um suco, como mortadela e pão e os vizinhos malham multiplicando o odor dos corredores. As baratas com suas minúsculas pernas movimentam sua massa suja pelo meio-fio sempre em frente enquanto eu cuido do quão inútil é cuidar a vida de alguém. Guardo palavrões e a vontade de expor verdades graças aos princípios da escrita refinada, ouso ser sutil, mas as verdades permanecem dentro ou fora de belas frases. As cenas se repetem e nenhum rosto marca na minha mente atulhada de resquícios não-utilizáveis de tudo que eu escrevi, li e quis e hoje é plano de fundo de novas expectativas muito provavelmente sem serventia. As pessoas seguem esperando milagres enquanto a vida corre sob seus narizes. Vocês são todos iguais e não me deixam sonhar e esquecer que sou idêntica a qualquer um. Deito e durmo e grito me deixem em paz, vocês não tem nada pra ver aqui.

02/04/2012


O fantasma da guria que eu fui corre solto nos quintais da minha infância. Almejo tanto ter devolvida aquela liberdade, que só é sentida na brisa da impressão do amor. Que triste fim o da realidade, que faz crescer as crianças, de insignificantes os loucos e sozinhos os poetas. E que triste infortúnio que até o amor cresce, chamando de mãe a cabeça e não o peito, que a imaginação me devolve a infância com rosto de homem, me tira o chão, por preciosos raros meses. Dá-me depois a realidade, devolvendo-me o chão e as tristezas. Tenho de novo oitenta anos.

25/03/2012


Leio nos teus lábios ressecados um riso que é fadiga de dor, cansaço de mim. Subentendido em teu sorriso está o adeus cabível a quem não cabe em si. Transbordo um não entendimento próprio que não abre espaço a qualquer contato, a redoma que me cerca construí na descrença dos meus braços em abraços verdadeiros. Minha tristeza é um velho mendigo de barba vomitada, que nunca mais terá outra casa se não a imundice de ruas solitárias e invernais. Minha coragem são as rosas sangrentas que brotam do lado externo do muro que protege o mundo das minhas sujeiras escondidas sob largos tapetes negros. Sou o resultado dos naufrágios das saudades todas do que nunca tive.

13/03/2012


Quando triste desenho nas margens dos cadernos meninas sorridentes, bocas desfiguradas, olhos doentios, crânios desproporcionais ao lado de zumbis sedentos, de olhos vidrados, crânios partidos, mandíbulas esticadas. Os gritos se encontram nos meus ouvidos, o desespero nas minhas mãos, a imaginação me tritura a sanidade. Uma menina acuada berra e chora dentro de mim.
No quartinho dela minúsculo sustentado no vazio das minhas entranhas correm gotas escarlate de relógios derretidos, pregos dançam incessantes abrindo novos caminhos, enquanto eu, a sacudir todo corpo, sinto a menina pular corda e rir alto, cada vez mais alto do eco dos meus gritos de pavor todos engolidos no meio de qualquer uma das aulas. Minhas mãos pressionam o estômago, mas não é lá, e nem em qualquer outro pedaço palpável órgão tecido célula, ela nem eu sabemos onde é a sua casinha sem porta em algum ponto de encontro de todas as minhas viagens, meu derradeiro paradeiro.
A noite quando tento dormir, ela grita bem alto fica, fica, fica comigo não me deixe aqui onde não sei quem sou nem o que quero nem pra onde vou. Eu digo calma, querida, você não é a única. E nesses momentos chego a criar até compaixão, certo reconhecimento, empatia, com a tristeza da menininha que é minha e eu sou dela, que sem ela pra culpar pelas minhas insônias, se não é ela pra ser a minha loucura toda morando em uma casinha onde os relógios derretem, o que ia ser de mim? Também tô com medo, lindinha, deixa eu entrar no teu quarto? Deixa, deixa eu me encolher na tua caminha e pedir pra um Deus lá em cima que ninguém conhece que nem você, que ninguém sabe qual é o rosto, pra um dia eu ser eterna e plenamente feliz? Viu, sou burra, tola, romântica porque só assim me sinto por cima dessa merda toda. A igualdade me detesta, ou talvez seja o contrário.
E no outro dia saiba que ela grita, cada vez mais alto, implorando um socorro que nunca chega porque lá dentro do meu peito nada entra nada sai só a menininha que nasceu lá, nem eu nem ela sabemos porque ou como, que grita e esperneia em busca da salvação, assim como eu e você.

09/03/2012

Teus olhos e meus cacos


Saudade das coisas findas que nos teus olhos de azul fundo fingiam-se eternas. Olhos nos quais, quando atingidos pela luz do sol, nasce por dentro uma flor de azul claro que cresce até sufocar e matar a anterior, sendo essa a morte mais linda que eu já vi. Sinto falta de não querer nada que ultrapasse os limites da realidade, de um sorriso simples igual esse teu, como se tudo lá fora estivesse em perfeito equilíbrio, as criancinhas, os postes, os telhados, as sinaleiras, os muros, os risos. Sinto falta de uma leveza que perdi, aos poucos, assim como se extrai lascas da vagueza dos dias, das falas das pessoas, da feiúra de algumas coisas. Saudade do guri que tu era e não conheci, sem onda de dor nenhuma por dentro do mar que são teus olhos. Falta tenho é de um jeito meu de querer um presente e ele apenas, e do contentamento de pegá-lo nos braços, depois de porem em sua presença um preço. Sinto falta dos desejos compráveis e da pressa tola de decidi-los até o natal. Saudade do poder que nunca tive de engolir de uma só vez os meus choros guardados, risos escondidos, sorrisos mortos e todas as palavras que guardei pra não ferir e viraram cacos minúsculos a me arranharem a garganta por onde um dia almejaram sair. Queria mesmo mais que todas as coisas vomitar esse medo todo de viver.

18/02/2012


Não expresso drama nenhum, mas no fundo quero sumir, achar antes um jeito bacana de dizer assim, bem séria, que as coisas todas estão melhores: o mundo as pessoas as empresas, tudo lindamente sem egoísmos se estruturando ao redor das massas pensantes, gente tão genial essas máquinas de fazer dinheiro e alegrias. Você olhava sóbrio o vácuo, a parede da sala minúscula; você enclausurado dizendo: Será que um dia vão nos aceitar mesmo assim? Acorda, querido, as pessoas só aceitam, convivem, fazem filhos, compram apartamentos espaçosos de vistas privilegiadas sem esgoto algum por perto com seus iguais. Vai, não faz essa cara de que essa limpeza toda aparente te atrai mais que esse melodrama, essas frases sussurradas assim teus-livros-tua-cultura-não-preenchem-o-teu-vazio. Por favor, não fica com raiva dessa vez, não atinge o primeiro eletrodoméstico que ver com a cadeira branca cheia de furos no encosto só pra me enlouquecer, deixa que essa calmaria nos engole bem antes, não diz assim "fica aqui sozinha com teus dramas, ídolos mortos, teus contos podres e pobres" porque eu juro que não volto atrás. Não sai correndo por aí de sunga colada gritando quem vai nos salvar?, deixa as ideias improdutivas irem e virem, espera aparecer qualquer coisa que sirva pra devolver pra gente a crença de novo, no mundo e nas coisas todas. Não chora assim, espera vir uma esperança que nos resgate de morrermos assim tão murchos e fatigados sem perguntar mais pra ninguém porque foi que tudo ficou tão escuro e todo mundo parece tão burro e ridículo em fantasias de ano inteiro. Larga as minhas pernas, eu preciso ir embora entrar em casa aquecer o café deitar a poltrona ler amenidades e tragédias super-focadas pela mídia que dramatiza sem propor soluções igualzinha a nós. Vai dormir tomar um chá engolir essa semana inteira em goles pequenos e doloridos de trabalhos mal recompensados, procura a companhia de um amigo desses que te chame pra ver TV e ouvir as notícias e sorrir de dentes tortos mais uma tarde vencida, mais um dia, mais uma manhã onde tudo parece perfeitamente posto em espera pra quando se recuperar a lucidez.

11/02/2012

Teus fios soltos de cabelo e outras ideias desconexas


Tenho medo das coisas irem bem de mais e de querer de mais uma guria neurótica de cabelos vermelhos e medo da vida. Sei que você tem mais cócegas nos dedos dos pés que nas axilas, que odeia ser vista tomando banho mas eu faria cócegas em qualquer lugar do teu corpo e tomaria banho contigo. De olhos vendados, se preferir. E você fala sobre bloqueios mentais, escreve atrás de cupons antigos e notas de supermercado frasezinhas sobre o amor que voam soltas pela casa. E essas coisas se tornam insuportáveis depois de uma semana, suas manias minúsculas, seus fios de cabelo desprendidos de coques altos, suas francesinhas brancas descascadas nas pontas, seus tiques e perfeccionismos. Sem querer implico com cada passo seu e te peço pra deixar meu apartamento trancado quando sair, preciso fugir pra não querer ficar pra sempre.
Tô com medo porque nenhuma outra garota lerá Fernando Pessoa pra depois virar de lado, dobrar as pernas e dormir como se minha cama fosse o melhor lugar do mundo. Eu disse assim não sei se quero vender meu vômito pra viver, escrever é a única coisa que faço com vontade verdadeira. Sem obrigação nenhuma. Você respondeu assim você seria um grande idiota se não vomitasse pra toda essa gente ver. E eu tô acreditando. Depois sussuro baixas desculpas, é que não sei se sirvo pra ser feliz pra sempre.

09/02/2012

Sem pausa e sem dor


Só uma taça de vinho barato e um Bukowski amargo me tiram daqui. Não sou mais nenhuma guria triste almejando consolação preciso é de um ombro sem mão amiga pra cobrir sou um velho maltrapilho da tabacaria mais suja e discrepante sussurrando que-que-eu-faço questionando onde é que anda o amor. Quero correr atrás de nada pra no fim ter um vazio pra tocar na ponta dos dedos. Quero uma solidão de dias sóbrios sem ilusão nenhuma pra alimentar. Quero falar sem nexo coisas feitas pra não conquistar ninguém me esconder dessa hipocrisia de simpatia e agrados morar pra sempre na minha casa de papel e palavra nessa ilha sem mais ninguém sem fustigar inteligência nenhuma. Quero mais provar nada pra ninguém não preciso de apoio reconhecimento abraço de mãe tiro na boca. Fim de drama que aqui ninguém chora destila dor em cartas não mais usáveis. Como tudo nesse mundo minha dor também é descartável.