07/11/2010

Estranho errado


Não queria de repente sumir, e se sumisse, sumir de ti. Não queria ir embora e nunca mais te ver e - entre tantas outras coisas que eu tenho mentido que não me importo – não queria de forma alguma perder o nosso mínimo contato de nos ver nas ruas e fingir que somos completos estranhos.
Não podemos escolher, tu já me disse. Entendo que seja assim, mas não quero. Nesse tempo de tanta chuva e pouco sol em terra, moramos nesse lugar onde é inevitável ser tão mais diferente que todos a nossa volta. Eu até tentei descobrir alguma maneira de me aproximar mais, só pra dizer que se perdi o medo do mundo e dessas formas sem cor, talvez você carregue sempre um pouco dessa culpa.
Mas quando te perco por onde eu ando, o café consegue ser mais amargo que o habitual, os choros mais incessantes, as cargas horárias mais pesadas e as madrugadas mais longas. E a vida possui aquele gosto amargo de rancor consentido e música dramática de barzinho. O bombom de chocolate preferido consegue igualar-se a sopa de hospital e as coisas coloridas de outros tempos ganham um fundo-cores-pastéis quase insuportável coberto de lembranças.
Mas quando digo isso, e quando ainda assim eu me aproximo, mesmo sobrecarregada de medo e daqueles sentimentos que nunca fizeram bem a pessoa alguma, eu posso enxergar no teu coração os buracos profundos, poços e corredeiras transbordando água e outros conteúdos dos quais desconheço e já me tiraram tantas noites de sono, esgotaram-me a paciência e alimentaram a curiosidade.
E mais uma vez estou longe das minhas escolhas. Choraria, correria, alcançaria. Mas eu nunca alcancei.

25/10/2010

Esboço


Nós temos estas mesmas características, porém em doses acentuadas. Seria difícil, veja bem, se tivéssemos a mesma quantia desse estranho amor, que poderia nos machucar por não saber o que fazer com ele, onde colocar, onde guardar, onde expor.
Seria pior ainda encontrar um lugar para as nossas decepções sem expô-las de mais, sem dramatizar e jogar a culpa em alguém, sem esconder em baixo de um sorriso ilusório o que está errado.
Não aprendemos o momento exato de assumir nossas culpas e esquecer os rancores, nem ao menos nos ensinam qual é a hora certa para encontrar alguém para desabafar. Recebemos sinais, o dia inteiro, incessantemente ignorados pela razão que nos faz cometer loucuras. Tudo aquilo que me soa mais sóbrio me faz embebedar, porque não conheço o que há em meio termo. Não sei como tudo aquilo que enxe os pulmões alheios de ar tem a capacidade de me faze sufocar. Não conheço a fórmula, o ponto de escape, o lugar do equilíbrio. Estamos no lugar errado, só podemos ver isso.

08/10/2010

Nossa semelhança


Eu não gosto desse teu falso conformismo escondido nas derrotas. Não gosto desse teu rancor transformado em perdão, nem da tua alegria que esconde lágrimas. Não suporto a tua ironia por trás das palavras, nem a tua falsa animação. Não suporto o teu desdém, as tuas olheiras, teus colapsos nervosos, teu cabelo desarrumado, tuas mentiras óbvias de quem não é acostumado a fingir nem conhece seu lugar no meio dessa hipocrisia toda, teu sorriso vezes amargo vezes protetor, tuas crises de choro, nem ao menos as de riso, porque não agüento sentir minha própria falta nos teus dias, mas agüento menos ainda o teu desamor quando torno-me presente. Não concordo com as tuas teorias, e discordo totalmente da tua opinião. E se eu não suporto nem ao menos te ver na rua, gosto muito menos quando me pego te desenhando, simplesmente porque não me acostumo com esse teu jeito tão desajeitadamente cômodo-sem-ambições que se tornou coerente a tudo. Simplesmente porque de tão errado que é, até se parece comigo.

05/10/2010

o que é distante


Talvez a muitas e muitas milhas daqui, ou em outro mundo ou até em outra dimensão exista alguém que seja ao menos um pouco parecido com você, que me fizesse sorrir como você fazia, e que pudesse me fazer chorar com a mesma facilidade, e até que pudesse demonstrar amor da mesma forma que demonstrava. Mas sempre haveria um vazio, como o de alguém que deveria ter ido e não foi, que deveria ter amado e não amou.
Haveria sempre um vazio que iria ressoar a cada “eu te amo” sem tanto significado com os que eu te dizia. Eu queria aprender a fingir dessa forma, mas nem isso eu consigo, e não pense que não tentei, porque já se foram muitas dessas tentativas, todas falhas. E agora? Bom, não pense também que não me perguntei o suficiente. E que todas as respostas retorno não foram “acalme-se, espere”.

26/09/2010

atenciosamente


Pode ser egoísta ou até um pouco insano e errado, mas as vezes tudo o que a gente precisa é daquele amigo que diga “tudo vai ficar bem” mesmo que as coisas realmente não fiquem. Mesmo que ele não acredite verdadeiramente em tais palavras, mesmo que ele esteja vendo o fim da tua alegria e não suporte mais o quanto tu reclama o tempo inteiro. De um jeito ou outro, é sempre bom ser cuidado.
Em muitas épocas a gente dá mais do que recebe, e trata de cobrar tal atenção quando é a nossa vez de desanimar. É impossível ser sempre feliz, estar sempre em prontidão pra abrir um sorriso e os braços pra um abraço. É impossível medir de tempos em tempos a tua alegria, porque muitas vezes tu passa dias tristes ou horas, ou minutos. Não importa, o que importa é que os outros percebam. É que te abracem, te sorriem, te consolem. O que importa é que te mostrem que é assim mesmo que a vida é: altos, baixos, médios. Que é desse jeito mesmo que a gente tem que levar o tempo. Que é dessa forma mesmo que a gente aprende a ser feliz.

20/09/2010

O porto


E mais uma vez a gente passa por esse mesmo porto, a gente escuta as peculiares histórias de quem teve uma vida inteira pra aprender a ser feliz, e mesmo assim ainda escorrega em lágrimas toda vez que vê-se perdendo alguém ou relembra alguma derrota. E mais uma vez eu vejo nos teus olhos aquela velha tristeza de quem já é velho de mais praqueles incômodos e de quem pede socorro pra não enlouquecer dizendo as mesmas frases de quem não suporta mais sofrer da falta.
Por outro dia nós passamos e contentes exibimos sorrisos de quem queria poder sorrir mais, e de quem espera que o futuro reserve quaisquer surpresas que tragam mais uma luz de oportunidade, de quem não acredita na existência de um único túnel pela vida inteira. E em meio aos encontros e desencontros que nós temos passado, outrora tristes e agora alegres, nós observamos o mesmo rio que cruzava pelas tuas margens e que recebeu tuas lágrimas vistosas.
Era só mais um conto que tu escrevera procurando uma linha de escape pra qualquer dor, que já não tinha uma definição certa porque já fora muito tempo embora nesse nosso esgotamento. Porque não havia mais chance de tu me olhares e dizer “Tudo bem, isso já vai passar” porque em tantas outras vezes estávamos nós no mesmo porto esperando o mesmo barco que nos levasse embora com essa sede insaciável por cura dos nossos antigos problemas, e só o que temos visto é esse mar grande de mais pras nossas fracas braçadas. Só o que temos engolido é saliva que vem secando, e na sede de qualquer resolução temos perdido as gotas feitas de esperança que formaram esse mar enorme, que insiste em nos afogar nas nossas velhas tristezas.

25/08/2010

tão mais simples


Havia algo nas pessoas que as tornava diferente de mim. Ou fosse o contrário, quem sabe. O maior prejudicado nisso tudo era um mundo, pequeno de mais. Um mundo que faz de cada pessoa algo individualista de mais, grande de mais para que se possa caber dentro dele, e há uma insanidade na lógica que se cria quando se mata. Nós temos matado, agora mais do que nunca, e tentado transformar nossas próprias vidas em felizes. E o que há de mais simples que isso?

10/08/2010

anormal


Por vezes esconde embaixo de um tapete imaginário os rancores e desafetos e exibe um sorriso escancarado, porém falso. E, por vezes permite nas noites de insônia, nas tardes sozinha, nas filas dos bancos ou andando pela rua, que esse tapete desapareça, deixando expostas todas as marcas dos tombos e arranhões que já levara, coisas que demoram um certo tempo até se emaranharem em meio aos outros papéis amarelados das lembranças e sumirem definitivamente. Reserva também à tais situações que se perceba seu gosto por tudo aquilo que não é normal, suas histórias, o que é mau visto e que ela, da mesma forma insistente, opta por fazer e as escuras olheiras sob seus olhos que se originavam nas outras noites de insônia que passa lendo.
Muitas vezes, o que fazia cessar seus anseios, nem que por breves instantes, era escrever o que a preocupava nem que fosse somente pra guardar para si, mesmo que nunca mais voltasse a ler tais papéis.
Talvez não tivesse nem ao menos uma vocação, já que nem sequer podia se adaptar ao que não via como certo, tendo sempre um desejo de melhorar as coisas, no seu ponto de vista. Não poderia ser moldável, adaptável, nem friamente calculista. Poderiam pedir a ela para que fizesse qualquer coisa, principalmente pelas amizades, mas menos deixar de ser quem era.
FIM

27/07/2010

Covardemente falando


A gente aprende a ganhar umas pessoas
E perder outras
Nos ensinam que chorar é feio
E nós aprendemos a ser orgulhosos
Tem sido pouco, pequeno e inconstante
Uma morte à longo prazo
Esperar que nossos desejos se cumpram
Mesmo que todos nos insistam em negatividade
Nós mudamos tanto sem consultar uns aos outros
Nós nem ao menos somos o que desejávamos
Pare de apontar a arma contra sua cabeça
E dizer que sabe o que está fazendo
Você sabe onde encontrar apoio,
Sabe que eu posso ser seu ombro amigo
Apenas desista de possuir a esse fim
Existem grades invisíveis nos cercando
Ninguém pode ser feliz sem essa liberdade
Que perdemos encontrando nossas convicções
É mentira quando dizemos que os ideais nos libertam
Só agora você pode ver o que essa inteligência
E as suas palavras mais duras
Puderam fazer com você
Ah, por favor, para de crer em lutas
São só guerras sem propósito
Desista de ser só você, contra o mundo
O mundo está errado, mas é uma pena
Só nós sabemos.

26/07/2010

repleto


O tempo que você passava deitado
vendo as estrelas que brilham no seu teto no escuro
E as súplicas transparentes em seus olhos para que não te deixassem sozinho
Aquela canção que você tocava e hoje nem ao menos tenta
Como você pode deixar que tudo isso acabasse assim?

Você pode mudar de vida, e crescer mais do que os seus amigos
Você pode se sentir adulto e mudar todas as companhias
Mas e você está realmente feliz?
Não eram melhores os tempos de brincadeira e sem responsabilidades?

O que volta só vem na sua memória,
Nada mais toca seu coração
Você não deveria ter se permitido mudar tanto
o tempo tornou impossível o que deveria ser nosso presente