30/12/2011

O teu jeito


Vou entrando pelas portas abertas, e seguindo por corredores escuros e linhas tortuosas me desvencilhando de qualquer dor antiga, sentimento obscuro ou tristeza puramente pensante que nas tardezinhas me tomam pra estar só dessa vez pronta pra te encontrar. Sigo de boca e olhos semi-serrados contornando bairros e ruelas pobres de guris descalços com algum sentimento auto-depreciativo me acusando louca e desesperada.
Me dispo de discrição, com os olhos correndo por todas as janelas e sacadas e frentes-de-casas sabendo que em algum canto dessa cidade suja e discrepante um cara magrelo dono de alguma estranheza sorri em risos tristes. E ignoro o alinhamento de dentes brancos, o lineamento perfeito de lábios grossos, a cor de oceanos fundos de olhos alheios. Observo sem nenhum interesse os corpos bem-feitos e trabalhados correndo por essas ruas. Admito também passar despercebida. E sorrio timidamente porque as coisas seguem todas perfeitamente em seus lugares.
Ando o mais rápido que posso sem deixar passar nenhum detalhe dos prédios mal planejados, sobrados descascados e varais estendidos de roupas simples. Corro os olhos vorazes pelas esquinas e estreitas faixas de pedestres, te imaginando com sacolas de supermercado distraído de mais pra pensar em um encontro súbito, desequilibrando tua rotina de comentários sarcásticos destilados em redes sociais e sonos prolongados por tardes inteiras.
Te imagino em becos com garotas ou em lojas de material esportivo e solto uma risada involuntária. É que é tão o teu jeito estar trancado agora em casa vendo algum documentário excêntrico sobre a reprodução de algum bicho só descoberto no século passado ou tentando bater o recorde de cara que puxa os piores assuntos pra conquistar alguém. É tão teu jeito nunca ser encontrado por mim por estar ocupado de mais não se importando nenhum pouco com as convenções e cerimônias de todo o mundo.
É tão meu jeito seguir te procurando e suando e correndo nessa cidade ridícula de tão pequena e vulgar, onde comentários maldosos se alastram com a rapidez da luz. É tão meu jeito perder um pouco do ânimo com cada cara bonito e burro de mais que atravessa o meu caminho nas faixas, ruas e esquinas confiante de que merece todas as garotas burras e bonitas do mundo, enquanto você se esconde estranhamente lindo em algum canto por aí.

19/12/2011


É que sempre lembro de ti no banco do carro contabilizando as compras numa cidade de neve com a tua família, o preço do chocolate suíço, o hotel que tem gente famosa, a decoração dos lugares certos, teus novos sonhos de consumo. E que você não se referia a minha vida ou perguntava de vez em quando educadamente se eu já tinha ido pra tão longe. Me lembro de sermos tão opostos porque eu juntava uns trocos pra estudar e tu vivia com tudo aquilo que eu sonhava pra mim daqui a trinta anos. Me lembro de sermos tão iguais juntos no colchão que vale o salário de um ano todo do meu pai. Lembro que eu ainda achava em você alguma coisa impossível de existir em outra garota e você achava legal gostar de um cara como eu. E da manhã seguinte ao nosso retorno, dos teus pés entrando calmos na banheira, tuas mãos chamando a água quente, teu óleo de banho competindo no meu nariz com o cheiro de café. Você saiu enrolada na toalha e fez aquela mesma cara de “ops” quando tua roupa toda estava sob nossos pés pela primeira vez, fingindo ser bem-comportada de mais pra ter um cara vidrado nas tuas pernas deitado na tua cama. Lembro de você fazendo panquecas pra tentar impressionar um bobo impressionado e da tua empregada perguntando que bicho te mordeu. E do último fim de semana você se esfregando num cara qualquer pra me mostrar o quanto sou louco por você. Lembro de você virando dissimulada e me ligando tarde da noite pra saber quem é ela. Sendo insegura a ponto de duvidar que “ela” vai ser sempre você. De quando te disse pra acabar, do teu choro no meu colo e do meu choro mudo pelas ruas do teu bairro. Lembro e vou lembrar de você pela última semana em que ainda éramos nós.

13/12/2011

Emoção é pra mulheres


Vi você do outro lado da rua querendo me impressionar, andando e juntando bem as pernas, como se quisesse me convencer da tua magreza já explícita com o aparecimento dos ossos. Vi você do outro lado e querendo chegar mais perto, já me impressionando porque você se veste normalmente, tem uma aparência legal e ouve música boa. É meio obcecada por uns caras estranhos aí, é contra opressão, não tem nenhum tipo de preconceito, como deixou bem claro quando não me manifestei pelo sim e você jurou que eu era gay. E entendi que você já estava cansada de caras gays, mentirosos ou mal resolvidos quando o assunto fosse amor. Te peço desculpas por todos eles, pela minha raça que não olha onde pisa, não vê o que estraga. Te peço desculpas mas não sei se cabe a mim mudar esse quadro.

Você segue me olhando meio de canto e jurando me querer do lado. Não que a tua timidez te permita qualquer dessas declarações, é que tu sabe mesmo falar pelos olhos. E eu te olho bem de frente, para teu rumor das faces e desvio do olhar. Me divirto porque de alguma forma tinha um pouco de ti lá no início, me atrapalhando e engolindo palavras com medo de perder uma guria.

Um dia pedi que você de alguma forma fosse embora sem nunca ter estado porque falar de emoções fica mais fácil pra mulheres. Então você me analisou de todos os ângulos possíveis procurando em algum lugar vestígios de contradição, mas eu seguia sério não querendo te alimentar ilusões. E naquele dia você foi embora como hoje também está indo tão magra e convicta de que uma hora ele vem, se não for comigo vai ser com outro.

Porque sou alguém que pode mudar de idéia no dia seguinte e te deixar repousando feliz entre os lençóis. Sou quem foge de um compromisso não por querer outras, mas por não saber o que quer. E quem te omite tudo isso porque você é a melhor coisa que nunca me aconteceu e que vai embora crendo ser eu o mais covarde dos homens. Espero que você saiba disso e me odeie imensamente apesar de amar em você todas as coisas que nunca vou saber achar em mim, como essa entrega sem medo de ferimentos. É que pela primeira vez, quem tem medo é o caçador.

05/12/2011

Nossa história inexistente


Antes de tudo me apaixonei pela biblioteca do teu quarto que só tem uma cama estreita e essa pilha mal cuidada. E vi que você era um cara desses que valem a aposta e o pulo, tua simplicidade uma máscara pra essas coisas todas, um jeito de impressionar garotas pouco impressionáveis. Me perguntou o que eu mais queria conhecer no mundo e nem julgou nem nada que fosse algo do mais rico e bonito da Europa. E disse que minha beleza era simples e já cansou das coisas complexas. Disse que eu devia gostar das belezas também simples e não de ouro diamantes dinheiro ou caras esnobes. E uma infinidade de coisas que não cabem na memória mas merecem meu reconhecimento. Foi assim que você ganhou minha confiança nos primeiros trinta minutos de conversa e eu nem queria mais conversar. Você mantendo o ar sério e compenetrado nas palavras todas certas e eu querendo logo o próximo estágio. E contando como enjoa em viagem e teus sonhos com águas turvas e teus livros te chamando na estante. Daí eu te falei que tava com medo do que ia ser no próximo ano e que as coisas eram rápidas de mais desejando tua rapidez. E minutos depois só te via tagarelando algo sobre romances serem semelhantes e brigas valerem uma história. Me perguntou o que ia fazer da vida e eu escondendo em um não sei que queria escrever. E sabendo que as histórias que valem mesmo são as reais. Eu não devolvi a pergunta e dessa vez éramos silêncio porque alguma coisa tinha dado errado e houve um rompimento em algum lugar da história sem que nada ainda houvesse se encaixado no devido lugar. Agora queria ir pra casa e abrir uma página do Word e escrever que a minha admiração é o maior afrodisíaco. Mas também precisa de imaginação. E da ponta da cama minúscula você minúsculo se perguntando se eu podia ser assim tão vazia. E eu me perguntando em algum lugar por dentro porque é que não conseguia dizer nada do que realmente importa. E depois eu destrancando e dizendo ser você o cara mais legal por quem eu nunca me apaixonei porque diz tudo tão por dentro que não vale a pena pensar. Posso jurar ter ouvido teu pensamento perguntando de onde tinha saído aquela louca e o motivo de tanto alarde. E você certamente ouviu meus passos na escada e viu minhas complicações se dissolvendo todas pela rua sendo arremessadas na calçada e atropeladas por carros rápidos de mais. Talvez um dia você leia nossa história que não existiu e foi quase briga, bem do jeito que você gosta.

03/12/2011

O problema não é você, sou eu


É que você tem uma ex-namorada modelo e outra que só sabe rir de tudo. E eu sou quieta de mais ou, pior de tudo, inquieta com as mãos excessivamente compridas. É que você sempre convence as garotas rápido de mais e eu quero discutir pra depois calar e quando calo não me dou por vencida. É que sou irritante na minha ironia simplória que quer fazer graça e só consegue provocar. E um dia eu decidi que não ia mostrar pra ninguém que tinha medo e só quem sabe disso tudo são umas folhas riscadas e uns caras desocupados.

O problema é que me exponho de mais e já tentei ser menos mas sou sempre assim. E te estranho, te machuco, e quero deitar no teu peito e esquecer quem eu fui ou sou até o momento de desistir de estar contra todas as coisas inocentes nas quais eu vejo armas mortais. E eu paro de repente e te encaro séria porque você me intriga mais que todas as coisas que habitam a terra até ser um outro dia. De repente eu sei que tudo passa por mim e eu estou sentada observando e meus olhos são famintos mas meu corpo desajeitado. E eu quero tanto as coisas que quando as toco inevitavelmente alguém se machuca. Não entendo de delicadeza e desejo as belezas poentes. Não quero as coisas pra sempre, eu digo, mas repentinamente aparece alguém que me faz jurar que desistir não faz parte do meu plano pro outro dia. Viro a noite e o sol anuncia quem é a grande mentirosa. E eu digo tudo bem, tudo passa e na noite passada eu jurava ser outra pessoa. Meu problema é comigo e não estou mentindo, deposito confiança e carrego nas mãos a culpa de esperar e querer pra sempre de mais. É que vou ser quem reclama critica e suplica por atenção ou vou largar todas as histórias e ser eu. Quando eu descobrir o que isso quer dizer.

23/11/2011


Faço sulcos na realidade e nas valas deito minhas fantasias. Observo-as tomarem forma e cor, mesmo que muitas vezes não desgrudem do irreal, apesar de bem juntas à realidade. Sonho é realidade provisória que pra mim é pra sempre, preciso lembrá-los pra ainda ser eu. Quem vive só do concreto quando se perde do corpo vira nada. E quero ir embora ainda assim sendo. Não me interessa que pra ser lembrado ou esquecido, amado ou odiado. Não me interessa que odiando em mim os defeitos e fragilidades com o dedo apontando a fraqueza do outro. Não importa que cheio de defeitos, e sendo, portanto, humano.

Só não vou ser burro de fugir do clichê e fugir da idéia. Negar a dor, assim negando a verdade. Rejeitar a franqueza alheia pra evitar novos sulcos – agora em mim. Não vou interromper a explosão pra não ter de contabilizar os feridos e limpar as ruas que nunca deixam de ser imundas. Não vou abandonar a crítica pra não arcar com solidão. Quem diz o que quer, sente o que não quer. Mas não deixa de sentir.

20/11/2011

Você e minhas verdades


Eu me irrito com você falando amenidades, prefiro as profundidades. Aí você fala que não entende as pessoas que têm a capacidade de dizer que amam, só porque sentem prazer ou gostam de estar junto. Que amor é mais que isso. E quando percebe tá fazendo a minha vontade e falando de coisas sérias, você que sempre brinca. E eu solto uma risada porque me acostumei com a tua graça, e vou dizer que só o que mente mais que o te amo é o pra sempre. Talvez você concorde, talvez ache uma brecha qualquer na resposta pra me contrariar, talvez fique em silêncio e espere minha próxima observação com olhar crítico. Talvez você um dia me culpe por estar sempre um passo à frente dos nossos diálogos e querendo prever os caminhos obscuros da tua mente até tuas respostas sempre inteligentes. Talvez você dispense meus elogios à tua capacidade criativa e teu perfume que misteriosamente nunca morre no meu travesseiro. Talvez eu comece a falar no instante seguinte e depois de pequenas pausas tenha sempre novas idéias porque sempre falta alguma coisa. Talvez você me odeie por ser essa eterna insatisfeita, com você ou não. Ou essa totalmente insatisfeita sem você. E critique meu jeito repetitivo de declarar o que eu sinto nas coisas subliminares, num toque de braços e olhar inseguro. Talvez você critique minha mania de mexer as mãos o tempo todo e observar as roupas das pessoas, o que é puramente um instinto feminino. Talvez só você veja a minha maldade para com as pessoas mesmo sem conseguir odiar ninguém e meu jeito de te odiar te amando. Talvez você desconsidere meus temores de rua escura e de morrer pras pessoas que eu dependo para estar viva e quando tranco e não consigo fazer um elogio. Você pode repetir aquele comentário de que sou boa pra criticar e péssima pra agradecer, fico sem jeito e me morre o lado criativo. Só porque você é assim sempre. E você diz que eu também tenho talento mesmo que eu escreva tão pouco e pra ninguém. E que eu me sinta sozinha nas multidões e tão bem no meu quarto quando for noite. Até porque esse é meu motivo pra te temer e querer fugir do teu olhar analítico por me conhecer e me ver tanto mesmo me vendo com pouca freqüência. E vou fingir que as coisas vão bem quando distante porque você vai me perdoar quando eu disser que tudo não passa de um jeito de mentir pra me defender das tuas idas em cada olá. E pode ser que eu tenha vergonha de cada pensamento meu a teu respeito, e que procure incessante verdades que não deixam de ser obscenas. A mentira às vezes sabe ser tão pura porque o mundo com lente de aumento é sujo mas vou correr o risco porque já cansei das ilusões. E pode ser que isso te desagrade assim como eu, e que você volte a falar amenidades e finja que as coisas não acontecem assim tão rápidas e fortes. Talvez você finja e caia no meu conceito, mesmo que nunca vá perder o lugar que tem na minha cabeça, já que em mim é ela quem sente.

30/10/2011

Promessa cumprida




Agora você sabe que quando eu disse que ia embora, foi pra valer. Você viu, a gente viu, eu nunca mais voltei, e, pra ser sincera, provei até pra mim mesma porque jurava uma recaída qualquer graças à rotina. Fiquei quieta e parada e provei pro mundo, não só pra mim e pra você, que eu sabia me controlar, respirar, contar nos dedos até o desespero evaporar. Toda vez que quis gritar foi pra te provocar, pra me decepcionar, tenho duas por dentro, você disse, eu agora concordo. Uma parte minha me fere e toda vez que a lembro tenho arrepios, e o pior é que só você sabe provocá-la com suas reclamações descompensadas e defeitos apontados na cara de todo mundo. Com sua sinceridade de dois gumes que te faz o mais legal dos caras e o inimigo que qualquer um evita ter. Culpa sua? Nenhuma. É só seu jeito de descontar no mundo suas frustrações de quem tem tudo a troco de nada e quer mais e me quer tão pouco. Estraçalhei nos últimos dias uma parte minha que só existe por tua causa e nem mais te vi, mas quando te vejo aperto o nó bem firme. Dei dois nós cegos que só afrouxam nas noites de sábado que eu passo em casa, quase inexistentes, no meu ódio que é também loucura que é também amor. Quem sabe foi até minha mente que inventou esse pedaço meu pra me ocupar o tempo, pra te chatear, pra acabar com a gente antes de você resolver ir embora. Quem sabe foi só uma forma de me defender das suas eternas partidas que começaram antes da gente começar, no primeiro dia eu já sentia saudade, aprendi a ser vazia até quando preenchida. Amor é fácil de sentir, o que essa parte minha provou é que só se sabe que é pra valer quando o ódio aperta. Quase sufoca. Inventei casos e mil amores mas ódio só tenho por você. E hoje nem te sinto em nada, não está mais no café amargo e não existe você em nenhum filme preto e branco meloso de atriz linda com bunda enorme. Ah, você adorava os meus romances. E até o meu único terror que era te ver na companhia de mulheres já acabou, se enterrou, agora posso falar sobre tudo isso porque tudo é tão sem gosto quanto meu café da manhã que com você era sempre briga. E às vezes o sem gosto me mata, vou confessar. Só não quero mais ser perigosa, cortar suas roupas e jogar você pela escada, te ameaçar com faca da cozinha, nada disso, tudo perfeitamente no lugar. Eu dentro de mim, sem nenhuma surpresa, sem nenhum outro eu. Mas de vez em quando... Só às vezes quero eu de volta. Só às vezes quero você. E é sempre tão de vez em quando que eu nem noto, me pego divagando e sentindo saudade... Ou nem isso, você sabe, saudade e nostalgia tem suas diferenças, nostalgia é o que se sabe inviável mas mesmo assim se sente. E saudade vem sempre carregada de esperança, carregada de ódio, mas ódio não existe, né? Ódio já foi. Controlo tudo, enquanto você controla o olhar na expressão séria, nunca desce do meu rosto. Fico contando os pontinhos brilhantes do fundo do teu olho, é bem normal, sem tremores nem neuroses, com o auto-controle que eu não conhecia. Nunca soube mentir e sempre fui de falar de mais, sempre me entregando, comprometendo tudo em troca de tão pouco. Sempre juntando histórias soltas e trazendo pro mesmo contexto, te entediando com minhas filosofias de vida nunca verdadeiramente aplicáveis. Essas histórias estão fora de moda, você ri sempre que eu digo assim, como se as coisas precisassem estar inclusas na moda pra existir. Não precisam, já notei. Você me pedia pra parar de contar histórias da infância, essas que começavam do fim, assim como se eu nunca pudesse pegar nada pela raiz. Agora te pego pela raiz e já te cortei, arranquei fora porque não vai mais nascer, já morreu, sumiu de vista. Eu sumi também. Porque eu prometi e agora tenho palavra, nunca tive, te ligava no meio da noite mesmo quando jurava não te acordar, te deixar trabalhar sossegado, te deixar... No fim, eu deixei mesmo.

29/10/2011

Caçador de ideias


Tenho feito tudo errado. Mas sigo me justificando, porque sei que não é por mal, é por querer dizer tanta coisa e no fim não dizer nada. É ver os pensamentos dançando todos, como em uma grande festa, como num carnaval, levantar o braço de sorriso esperançoso no rosto e fechar a mão bem pertinho de um pedaço que nunca se toca ou se aprisiona. Desse modo, eles nunca me satisfazem e são tão ralos que não valem à pena nem pra tapar meus silêncios que deveriam se justificar pela paisagem interna. Ela tem sido tão óbvia, mas às vezes com nuvens tênues do insensato. Não posso reclamar, às vezes tenho a sorte de receber uma pequena iluminação de loucura. Os loucos são infinitamente mais espertos, até porque têm da inteligência que não se demonstra, até porque são julgados loucos, mais loucos do que aqueles que crêem-se superiores e sensatos.
Eu insisto, de qualquer modo, porque preciso cuspir uma parcela do que penso pra não viver atordoado. Não se pode dizer que não tento, junto memórias e tudo que observo e cortejo a inspiração. Que muitas vezes se nega a comparecer. Mas sei bem, que de dentro de uma caixa sai qualquer coisa, caixa escura onde não se identifica onde começa um pedaço e termina outro. E insisto em descer ainda mais o braço e seguir na busca. Pode haver lá dentro uma lâmina, uma pluma, um excremento, uma flor morta, um punhado de urtiga, um punhado de dor. Tudo complementa a experiência. A inspiração pode ser devastadora assim como irritante e incômoda, mas se não desse modo, como chegar ao produto final?
A ideia às vezes vem fragmentada, às vezes chega solta, desprendida de um contexto. Às vezes a ideia machuca e eu a descarto. Às vezes eu a desprezo e então a culpa é minha, porque dela se pode esperar qualquer coisa, e de mim só se pode querer o aproveitamento. Mas descarto porque também me pertence a covardia. E sou, então, aquele que procura sem reclamar cansaço, sem reclamar eventuais machucados ou dores latejantes em feridas antigas que são resgatadas nesse processo, mas que quando percebe a exposição logo esconde e diz ser outro. Porque pra ser si próprio é preciso mais coragem que pra interpretar, enfrentar platéias, vaias, críticas. Difícil mesmo é quando não consta a máscara no uniforme de trabalho.
Pra ser de verdade deve haver um pouco de contradição, confusão e medo. Pra ser feliz também é preciso ser triste, mesmo que não seja possível ser sempre o desejado. Já pra ser sempre igual só se precisa de ensaio, costume, rotina. Pra ter uma ideia tem que se ter coragem, mesmo que no fim negação, mesmo que vergonha. Mesmo que frustração pela expectativa exagerada, pelo sono perdido, pela noite virada. Mesmo que no fim não valha nada, quem sabe sirva de experiência, seja só mais uma curva da estrada.

15/10/2011

Um mandamento e mil questionamentos

Em desejo não se manda, veja que tolice, “não cobices a mulher do próximo”, mas quem é que comanda as próprias cobiças? Saibas que se fosse assim seríamos todos muito puros, pode ter certeza, todos muito certos. Padres não deixariam de serem padres pra casar com mulheres, nenhum padre exploraria de crianças como se sabe que às vezes acontece. Adolescente não teria filho, olha que maravilha, não existiriam pedófilos ou transgressores e muitas leis nem existiram. Mas, infelizmente – ou talvez não, porque perceba que sem graça seríamos todos – somos impuros e imorais e mesmo assim julgamos os erros alheios que são cometidos graças à suas mentes nem sempre limpas – ou talvez nunca. Apontamos com nossos dedos tortos as caras dos criminosos, mas será que com um pouco mais de coragem não seríamos nós atrás das grades? A verdade é que os medrosos não cometem crimes e, de fichas limpas, riem-se da desgraça dos que nasceram sem pudor, quando estes se saem mal transgredindo leis. Soei um tanto sensacionalista, mas foi só por pensar que todos nós temos uma tendência ao crime. E no quanto nos descriminamos e reprimimos por todos os desejos que são considerados sujos, por nossas práticas taxadas ilícitas, por nossas vergonhas, pelo nosso caráter que julgamos inquestionável, mas será? Ah, o quanto julgamos os drogados, bêbados, péssimos pais de famílias, mas quem não teve ou tem, lá no fundo, um desejo de também decepcionar essa sociedade que nos exige e nos arranca nossas conquistas como se faz com doce em mão de criança? Sociedade que nos tira e nunca devolve pais, mães, irmãos, que entraram e não saem mais da morte por um tiro que estava perdido, pela arma na mão da pessoa errada, pela polícia que foi feita pra proteger e tantas vezes machuca. Na verdade, todos estamos mergulhados nessa lama, uns mais, outros menos. Todos compartilhamos da indignação que pouco se difere do ódio de ser um fator a mais, só mais uma fruta nesse cesto de maçãs podres. Desculpem-me os religiosos, perdoe-me Moisés, mas é um grande erro esse de reprimir nossos desejos, além de ficarmos o tempo todo sufocando nossa má conduta pra ser alguém melhor. Pelo menos que possamos cobiçar à vontade, querer, desejar, mesmo que escondido, mesmo sem confessar, as coisas alheias e as coisas erradas desse mundo.

11/10/2011


Andando de vagar, percorrendo as ruas como se percorre as páginas frágeis de um livro antigo, pra não se fragmentar a folha, arrastava os olhos pela noite sem lua. Nos prédios e nas casas, as luzes eram fachos integrantes da paisagem urbana. Como quis fugir dali. Como quis voltar pra cidade dos pais, todos conhecidos, todos aptos uns aos outros. Mas é preciso sair, dizem. Ele nunca disse, mas acreditava. Quem fica em baixo da asa da mãe ou é medroso ou é viado. Mas tinha assim quase que um medo, quase que uma sina, como se diz assim: uma certeza. Uma certeza de que à partir daquele dia também ele fazia parte. Parte daquele cenário, das luzes das casas, do olho negro invisível pra si lá em cima. Andou mais de vagar ainda. Podiam agora passar e tirar uma foto, pintar um quadro, ele também era paisagem, podia ser cartão postal. Os olhos correram por seus pés e agora seus passos – ele percebeu com a mesma certeza com cheiro de roupa guardada – pertenciam a uma rota que chamamos tão descuidadamente de destino. E o passo podia se acelerar, quem sabe na próxima esquina? Uma mulher, um amor, talvez ou homem. Porque não um homem? Agora era o coração descompassado que não conhecia mais, já tinha tanto tempo... Tinha medo do que iam falar. Por que é que falam? Por que é que julgam? Ele suspira porque amor é sempre amor, mas até a isso dão nomes, tem quem ame do jeito não convencional. Puxa um cigarro e houve as buzinas e nos olhos e nos postes vê o aceitável: ninguém entende. Não há revolta nenhuma, é só um cara andando pela rua com medo de sentir. Todo dia a mesma rota, se bem que às vezes se altera um pouco, nenhuma festa, já havia um bom tempo, nenhum amigo. Vinha correndo tanto, hoje queria conhecer um lugar diferente, mas não tinha com quem, só com os próprios pés e a certeza de finalmente existir naquele lugar naquele instante. Aumenta o passo. Ninguém sabe o que se passa, ninguém. Às vezes se julga conhecer uma pessoa e ter certeza de que ela pensa assim, afinal ela disse, mas pode ser uma invenção ou sabemos aonde ela vai e supomos que ela gosta dessa vida, mas pode ser só por pressão. Ninguém conhece ninguém e ele quer tanto conhecer. Anda mais rápido. Todos sabem ser distantes mesmo estando perto, sabia? É quase um dom. E quer tanto estar perto e ser de verdade também pra alguém e não só pra um lugar qualquer. Agora ele corre.

06/10/2011

Eu ou Ela


Prometo que a partir de agora vou ser silêncios. O que é isso, o que é aquilo? Não pergunto. Estou aprendendo, hein, vou rebuscar menos com as palavras, ser “natural” controlando tudo. Clara. Distante, até. Vou aprender ainda mais, viu, vou ser mais sociável, é assim que se diz, “sociável”, como se fosse um pouco de bicho quem tem medo. E medo do quê?

Ah, tenho além de tudo que me aprofundar menos, ser dessas que pouco revelam. Sabe quem é? Sabe quem é aquela que anda na rua refletindo riqueza, mas não se sabe se é rica, aliás, não se sabe nada. Ela é só mistério. Ela aparenta mania com limpeza, organização, mas quem sabe... Ninguém sabe. Qualquer um daria um dedo pra ler as revistas que ela tem, conhecer a sua casa, o seu quarto... Mas ela some e aparece e some de novo só pra enlouquecer. E quem é que não gosta de um pouco de loucura boa. Quem é que não gosta dela. Vou ser igualzinha, mas será que ela permite igualdade? Sei eu. Ela não permite nada a ninguém. É interessante ao máximo e isso aborrece e instiga, fico louca mesmo gostando de caras. E os caras enlouquecem. Com ela, é claro.

A questão é que ela sabe causar interesse. Quando ela chega todo mundo olha, e ela ri baixo e bebe pouco, e todos querem ser baixeza e sobriedade pra ter um pouco da riqueza dela. Ela, ninguém sabe rica do quê. Os assuntos começam mornos e terminam quentes, as rodas cheias de homens lembrando as pernas dela. Ela é todos os assuntos, até pra mim que comecei falando da minha inquietude e acabei falando do silêncio atraente dela. E o que mais? Atrai nela a indiferença, claro, maior de todos os atrativos a pessoas. Atrai nela o olhar sempre agitado, que nunca pousa assim como seu corpo magro e bem-feito. E amamos nós todos as coisas provocativas. Ela chama atenção, todos querem ela, todas querem ser iguais... Mas ser assim, sempre incógnita, não deve dar solidão? Tenho que aprender também a gostar de invernos, vou pôr na lista, porque dentro dela deve dar tanto frio.

Lembrança Farroupilha


No caminho por onde passas
Deixas rastros que só eu sei
O quanto é sozinho em andanças
Nestas terras que tanto pisei.

Das mulheres, campos e gostos
Carregas lembranças por dentro do pala
E pela vida coleciona desgostos
De quem não abaixa a cabeça ou se cala.

Nos teus olhos já trazes culpa
Que outrora não carregavas
Desejas correr pelas curvas
Ou morrer no meio da estrada.

Todos os dias sabe de amigos
Que por este pampa caem sem vida
Descobre o sucesso de inimigos
Que o nosso Rio Grande abriga.

Na cuia do mate tens água quente
Pois no ar o frio se propaga
Nos olhos tens fúria ardente
De quem não pode largar a espada.

26/09/2011

Burrice poética


A velhice tem me levado a lembranças que são fósseis de sonhos postos em espera por princípios, ou outra dessas tolices que já nos ocuparam os dias. A mesma velhice que se mostra nesses dias tristes como só teus olhos sabem ser.

Já velhos somos, minha senhora – em minha mente tão moça -, e como tais, não temos direito a regalias das coisas que esperam. O tempo não mudou teus sentimentos de moça livre como fizera com tua face já tão disforme, a cada dia derramando sua beleza por rugas espessas, como as lágrimas que outrora me feriram como somente lanças afiadas e cravadas lentamente doem a um homem. E fui eu um homem, pois tinha barbas, uma casa, um emprego e alguém a desejar.

Hoje dessas dores não sofro mais, pois tu não mais choras. Tens olhos secos e um certo brilho perdido, que já fora razão do viver de muitos rapazes de nossa época de cores e sabores hoje inexistentes em nossas vidas tão escassas de quem beira a morte. E hoje, já caquética e de passos arrastados, mesmo hoje, com meus cuidados, me dói que em todos esses anos tu não tenhas aprendido a amar o que tens em mãos. É dessas que sempre irá querer o inatingível e viver a beira da história que jamais escreverá.

Já tanto te escrevi, moça, te enviara infinitas cartas que atualmente nem se usam, declarando essa beleza que via e ainda hoje vejo em ti, que tivestes em todas as fases da tua vida e agora se põe pelos dias, e se derrama por onde passas nas andanças lentas de quem não mais tem pressa.

Tal beleza que não soube ver em nenhuma das outras passantes por esse meu caminho cheio de pregos e pedras e desvios, com rios indecifráveis e histórias imemoráveis, diferentes de tuas idas e vindas todas recordadas em meus cadernos amarelos. Já tantas mulheres desejaram um poeta a sangrar assim por elas, de cabeça baixa e olhos entristecidos, sem saber mais onde encontrar moradia e sem querer abrigo em qualquer outra paragem. Mas tu não querias um poeta.

Querias um homem. E homens, nem hoje nem nunca foram criaturas permitidas ao choro, nem a qualquer dessas coisas proibidas como são as covardias e os medos. De homem só tinha as barbas, hoje tão brancas e finas, e essas coisas tão desimportantes a verdadeiras mulheres como eras tu. Precisavas – e ainda hoje precisas – da segurança que nem a mim saberia fornecer, nesses caminhos tristes, sempre a duvidar e questionar minhas escolhas nunca exatas.

Tu não temes a morte, e nisso vejo uma beleza que de pouco se entende. És corajosa e nisso só enxergo virtudes. Mas inebriados meus olhos se tornam quando te imagino, tão frágil e pequena, nos vorazes braços da morte a transpassar tua alma que és linda por si só. Te admiro como a poucas pessoas se pode admirar, pela teimosia de nunca me desejar. E isso é burrice, minha cara, mas nunca cheguei a dizer-te que poetas eram homens espertos.

20/09/2011

Certa noite


Ela não reclamou da vida
Como era sempre de se fazer
Ele não exagerou na bebida
Nem se exaltou como era de se prever

Naquela noite de poucos encantos
Com bêbados caídos pelos cantos
Mais uma reunião de desinteressantes
Suados, altivos e dançantes

Só tão diferentes seria aos dois
O que normalmente era o depois
Corpos unidos pra prevenir solidão
Vermelhos e sôfregos no apelo de irmãos

E já tão separados da multidão
Os únicos que tocavam as mãos
Com a cordialidade que só o desejo trás
De quem doa querendo sempre mais

Pra trás deixavam os loucos
Que na solidão compartilhada veêm liberdade
E na manhã seguinte com gritos roucos
Vão-se embora sem lembrar a identidade

No silêncio entre encontrá-lo ou perder-se
Ela riu como nunca ria
E ele sem poder deter-se
Abraçou-a na noite fria.

19/09/2011

Cálculos e Exceções


Passava insone úmidos anoiteceres com jarra e copo d’água fazendo-lhe companhia, e na falta de afazeres planejava relações futuras que nunca – agora repetia já sem remorso algum –, nunca viria a ter nem porventura.

Nasciam-lhe conversas inteiras nunca verbalizáveis. Às vezes tão pouco falava, pela consciência de que quem muito fala pouco diz. Era só uma regra, das muitas em que não se devem procurar exceções, já tão escassas e perdidas entre mil coisas que tomam forma literal do que provavelmente aconteceria se.

Infelizmente, digo, é uma pena, mas temos de seguir as probabilidades, a mulher pensa também sem remorso. As coisas acontecem, como já sabemos, porque nelas existe o quase tangível de sua causa somada a influência de outros tantos fatores que tornam reais os fatos que um dia podem ter habitado o imaginário de qualquer um.

Ela errava porque estava sempre em busca da exceção. Era dessas que gostam de contestar regras e torná-las frágeis. Já tão frágeis essas moças. Já tão burras em lutar contra a maré dos acontecimentos, probabilidades e cálculos matemáticos, os quais nunca entedera, que derrubavam suas teorias com as quais acreditava fazer ceder o mundo inteiro. E sempre ela própria cedia de suas más escolhas ao mundo.

E já a mulher tanto inventou, dissimulou os fatos e os enredou – por burrice, hoje admite – em seu corpo, e às mentiras se prendeu pra não ter de dizer a ninguém o quão pouco sabia de si. A mulher nunca disse a si própria. Por isso, nas probabilidades, erros e histórias muitas, sobre medo de lá na frente nada do que previu acontecer, lhe ocupavam a mente enquanto ela própria se abandonava. Acreditava, já para evitar decepções, que o mundo era feito das contas que ela nunca compreenderia e das obviedades que nunca desejaria. Já sem remorsos.

08/09/2011

Deixar viver





Cansei de tanto acreditar
Que o importante é não viver
Se for pra tentar e errar
E dos próprios erros me esconder.

Quanta ilusão já alimentei
Por fome de quem hoje desprezo
Vida de quem pensa que é rei
Mas vive pra nutrir o ego.

Quanta habilidade já reprimi
Por preconceito ou até orgulho
Por isso calei, fingi, e sorri
Por estar em cima do muro.

Quanta crítica já esmaguei
Acreditando estar errada
Só hoje reconsiderei
Melhor inibida, que puta escancarada.

Quanta risada já forcei
Sem graça achar em nada
Mas fiz por medo, de novo
De ser eu a errada.

Já muito do que escrevi apaguei
Por não achar apropriado
Nem tema, nem palavreado
Por isso ninguém soube que acreditei

Que esconder fosse tudo na vida
Todo medo, desamor, ferida
E no fim só me arrependi
De tudo que não fiz ou vivi.

29/08/2011

Usando da Sinceridade

Pensei que tudo na vida tinha solução e me enganei. Procurei solução onde só havia mais problemas. Previ uns problemas e outros inventei. Aprendi a fazer das coisas o que eu bem entendia, e me magoei. Inventei tanta coisa que eu só queria falar, mas não tinha como. Fui tão pouco sincera. Fui tão calada que ninguém imaginava. Fui dramática, assim, como normalmente sou, mas usando das mais complexas citações pra essas coisas simples que reprimi falar.
Liberdade não é estar sem corrente nos pulsos. Não sou livre com esse filtro mental que finge que limpa e só sufoca. Até desaprendi como é ser assim tão transparente, assim como ninguém é. E é tão triste ver todo mundo se escondendo com medo de si.
Daí me dei o direito de me olhar de perto e dizer que é assim mesmo que eu me sinto: escondida em mim, por minha causa. Até me assustei, porque verdade de mais assusta, porque ser sincero assim consigo mesmo não permite amenidades pra não se ferir.
Tem panos quentes em cima de tudo, tem um jardim de flores fechadas que nunca floresceram com medo de quebrar. A gente é mesmo tão covarde. Quer ser bom e causar efeito, quer impressionar. De vez em quando é bom olhar pra si e ver no que vai se tornar. É bom se dar uns sustos, pra abrir os olhos e ver que coisas pequenas tomam grandes proporções. Têm as mentiras protetoras e as maldosas. Entre elas, nós pendemos e escolhemos. Dá pra se prevenir minimamente de se enganar, mas só se resolver se proteger. E logo de quem mais nos é perigoso: logo da gente.

28/08/2011


Uma moça quieta num canto
Pode ser que por puro encanto
Entendeu quando me pus a chorar

Nos olhos dela havia
Por dentro da penumbra fria
Uma tristeza de tanto sonhar

Com silêncio de coisa compreensiva
Palavra feita de brisa
Me aconselhou não desistir sem tentar

Seguindo como cego de mãos erguidas
Tateando no escuro a saída
Lancei as redes por dentro do mar

Quando puxei imagine o espanto
Pois na margem ressoava o canto
Da mais bela sereia a cantar

A moça de olhos miúdos e pouca fala
Boca pequena e bochechas com sardas
Que temia a feiúra representar

Me disse com tamanha esperteza
Que o importante não é a beleza
E sim a arte de saber cantar

Decidi por fim, aceitar que certa estava
A moça que amar me mandava
Por no fundo também me amar

20/08/2011

No meio dos dois


Tinha um cara no meio da Chuva. No meio de raios, casas, lojas fechando, pessoas ensandecidas, brigas localizadas, discussões cotidianas, tinha um cara.
Na sua cabeça, o mundo dava 180 voltas por segundo. No coração, era tanta sístole e diástole que o mundo ia explodir. Mas ir até o fim é uma dessas coisas que a gente toma como meta na vida. “Já vai desistir? Ainda é cedo, tem muita água pra rolar em baixo dessa ponte. Vai até o fim.” E a gente vai. E ele vai.
Na casa dela têm dois vasos de plantas perfeitas e pratos lascados. Seus pés doem, mas ninguém se importa. Dor é só a conseqüência. O tapete de dizeres “Bem vindo” vai feder a cachorro, têm litros de água jorrando das suas calças, mas é ali em baixo que fica a chave.
Têm fotos de três caras na parede, um é o pai dela com bigode revirado, e os outros dois, ídolos com QI superior às notas dele no primário. Mais água que nas calças, só nas palmas das mãos do cara parado no meio da sala. Ela não está.
Hoje ela nem tinha inglês. Também não era dia do analista, então o que será? No meio da corrente de pensamentos desconexos dele, eis que surge a camiseta branca ganha no natal de chinelas de dedo e coque desgrenhado.
Mudez se instala na sala, a língua some dentro a boca e a água do corpo todo vai pros pés. Um cara mudo, molhado e pregado sobre um tapete rosa peludo cogita se jogar pela janela, mesmo sendo um bloco de concreto.
Palavras como “o que faz aqui?”, “como conseguiu entrar?”, são jogadas inutilmente no ar pesado e quase palpável no quinto apartamento da direita pra esquerda no sétimo andar daquele prédio de vista pro mar.
Em um tempo onde nunca há precisão, ele se desculpa, assim meio gago, pedindo uma chance pra falar, mesmo que já falando. Ela cruza os braços e ouve coisas como por que foi pra tão longe, o que se cravou igual espada e tão difícil de tirar como espinho fino, mas é grosso, igual esse teu olhar, o que é que foi feito da gente? Todo dia quando eu acordo tem um pedaço lá meu que nem se meche, fica estático e morto e podre no meio das minhas cobertas de linho barato. Entendeu? Estou morrendo descontroladamente, e nem tenho doença nenhuma, o médico disse que é stress, mas tenho todos os cabelos na cabeça, nenhum dinheiro no bolso e uma coisa qualquer minha suja que não tem nome jogada na cama. O que é que eu faço?
Depois das palavras todas boiando, um queixo caído e uma incapacidade súbita de mergulhar por dentro de olhos, o silêncio ocupa seu espaço de direito na sala de móveis caros e cortinas suíças.
Uma boca se move, assim tímida. De repente, um estrondo. Pode ser por um raio, pelo forte vento lá fora, ou pelas unhas secas indo cada vez mais fundo por dentro da palma de uma mão molhada. Depois, o barulho oco de uma madeira encontrando outra e o caminhar descompassado de um all star preto no chão batido, quase inaudível, selou os quilômetros que agora se instalavam ali, bem no meio do peito do cara. O que ele nunca soube, é se dentro do peito dela qualquer coisa habitava.

14/08/2011

Fim das exposições


Ninguém mais quer se expor, todo mundo tá com medo de sair gritando dor por aí por causa do julgamento, da crítica, do erro. E medo também tenho eu, só que não tenho o visto como barreira a ser transpassada. Porque todo mundo tem problema em se aceitar, toda pessoa se aponta defeito pra ser mais rápida que o resto do mundo. E o resto do mundo aponta, sem parar. Daí a gente olha pra dentro e tem um medo insuportável de dizer qualquer coisa comprometedora, e não é mais a gente. A gente vira uma vergonha em exposição. Sobe no palco, no nosso lugar, um cabide cheio de receios e não-me-toques. E o palco fica tão vazio, a gente também... Perdemos a opinião, a expressão, perdemos o amor por nós mesmos e pelos outros. Porque amor é vergonha, sentimento é ridículo, choro é deplorável, e vocês fazem tudo isso trancados em seus quartos. Ninguém mais é nu pra nada, tudo precisa de maquiagem, mulher não tem mais beleza. Mulher é moda, tendência, marca, mulher é dinheiro pra esses caras que definem padrões a serem seguidos. O machismo mudou de nome e ninguém viu. E tá todo mundo apontando pro lado errado, pra gordinha de saia na rua, e admirando puta magra na TV. Ta todo mundo expondo o lado errado, inteligência virou recalque, poesia virou depressão, romance virou drama barato. Estamos todos nós fazendo plásticas internas pra seguir o exemplo torto. Estamos nos desligando do que era pra ser certo, vendendo a mente pra ser admirado, virando cópia desse molde de pessoa perfeita que precisa ser igual pra ser o ideal, procurando uma liberdade cega que nos padroniza. A gente tem é que fugir disso, e parar de ignorar a realidade que corre solta nos nossos quintais.

10/08/2011

Passante


Sou pássaro trancado guardado no teu seio,
Grito que ensurdece apertando tua cintura,
Mão que afunda e esquece o receio,
Beijo que cala e no fundo procura.

Sou cópia mal feita de escritor de romance
O pior mentiroso de sorriso mais triste
Decepção disfarçada das tuas mil chances
Choro abafado por quem não mais existe.

Sou a dúvida no vão das tuas crenças
O gelo que queima no ardido da boca
O Velho que bebe e conta trapaças
A mulher que me doa amor já sem roupa.

O que não sou é exemplo pra nada,
Do tempo só cobro a estadia
Nesse mundo em que toda tristeza tarda
E só o que passa sou eu pela vida.

04/08/2011

Por Você


Hoje eu parei pra pensar que saudade todo mundo sente, é dessas coisas normais, cotidianas. Você sabe, saudade de um cheiro, um doce que não se faz mais, uma torta que não mais se vende. Pode ser dessas coisas simples. Pode ser dessas coisas que a gente não entende, mesmo não sendo esse o meu caso. E às vezes minha vontade é abrir mão da compreensão da falta real e material desse cara que tanto me ajudou a entender o mundo. Teu espaço vazio do meu lado é palpável. Em relances vejo as tuas mãos que gesticulavam sem pausa explicando teu dia, mas só às vezes. Normalmente tu és essa interrogação no meio de uma página que a vida fez questão de apagar. Lembro de ti perguntando o porquê, questionando a existência de tudo, um eterno curioso que eu julgava mesmo viver pra sempre. Pro mundo, é só mais um cara morto aos vinte anos. Pra mim, a maior injustiça que já aconteceu, com tanta gente ruim espalhada por aí. Mas dizem que os anjos, Deus guarda pra si próprio. Já tive sim, a fase de desejar voltar no tempo. Tolice minha, querer te prender em uma sala e fazer passar aquele dia horrível sem ti em baixo de um ônibus. Queria te resgatar dos perigos do mundo. Agora eu me conformo te imaginando ao lado de caras como tu, num lugar todo azul, mas com alguma fogueira pra esquentar as mãos. Desculpa, mas não dá pra te imaginar num céu igual tua mãe faz, sem que tu bocejes o tempo todo. Às vezes sonho contigo numa eterna festa, outras choro lembrando o final da última. As coisas se alteram com o passar dos dias, deixei a barba crescer por um mês e tirei na última sexta. Daí percebi quão invariável tu será daqui pra frente, sem nenhuma ligação no celular, sem procurar as loiras que tu tanto gosta, sem tua visão idealizada do mundo. Mas, eu não esqueci, tu me ensinou também positividade. Vou confessar, fui um falso praticante, dizia que tudo daria certo sem acreditar em uma só palavra. Será que agora que você sabe, vai acreditar nessa carta? Posso te jurar, tudo vai dar certo, repito pras paredes. Vou acreditar que você está me ouvindo, que o tempo também passa pra você, que aí também têm loiras. Vou acreditar que você também tem saudades de me apontar o dedo na cara e me mandar ser feliz. Vou acreditar em felicidade, e isso será por você.

01/08/2011


Têm gente explodindo gente pra chegar no céu. Tem bandido explodindo cabeça em troca de pedra. Tem cara explodindo pela conta de luz no final do mês. Tem puta explodindo de ódio, faltou pagamento de um freguês. Tem mulher cortando os pulsos, faltou amor mais uma vez. Tem grito explodindo na rua, mão explodindo na cara, garrafa explodindo no chão. Tem fogo explodindo na selva, árvore explodindo na queda, tiro explodindo em um cão. Tem pé explodindo em um chute, álcool explodindo no corpo, palavra explodindo em briga. A maldade é sempre explosão. Mas também tem choro explodindo no carro, coração explodindo no peito, esperança explodindo em alguém.

29/07/2011

Velhice interna e algo mais


Várias vezes já me peguei criticando esses pedaços de mim que não há como mudar. Nem sei qual é o ponto de partida do problema, pode ser até essa mania de querer racionalizar tudo e tornar as coisas palpáveis. Eu sempre querendo alterar a natureza de tudo pra virar legível, pedindo que toda e qualquer coisa vire palavra, história, conto, crônica. Nem sei dizer se é errado. Talvez eu só queira que todas as coisas que eu estranho virem familiares, talvez só esteja me defendendo. Pode ser que eu só esteja cuidando de mim dessa vez. Pode ser por isso que às vezes, no silêncio que tanto me agrada, me imagine sentada no colo de uma velha contadora de histórias; às vezes sou a menina, e em outras, a própria velha. Me estranho no envelhecer interno: rugas de experiência me preenchem, calos causados pela espera me enfeitam. E às vezes, para meu total desespero, ainda tenho crises de inocência e infantilidade, abraço ursos de pelúcia e peço para não crescer – essas são as ocasiões mais raras, posso garantir. Mas, de um jeito ou de outro – e dessa vez vou citar Clarice -, o medo sempre me pega pela mão e me indica o caminho. Às vezes também me perco, mas quem não? Acho que é só mais uma forma de reconhecermos quando for pra ser. E nem adianta me acusar de otimista, ando longe desse estágio... Apesar de que existem alguns tipos de paz que a dor também trás. O que me tem importado é ser menos radical nos conceitos, menos crítica, mais permissiva. Você sabe, praticar dessas banalidades como sorrir e me auto afirmar feliz. Eu não sei como essas coisas ficam na prática, mas de vez em quando me prometi deixar tentar.

25/07/2011

Fugir de mim


Porque eu sempre vou me proteger e ser essa eterna insatisfeita com qualquer coisa que não precise do meu máximo esforço pra conseguir. Sempre vou me cansar dos mil rodeios que a vida dá pra nos ensinar cada coisinha que a gente faz de errado, e a teimosia nunca vai me permitir largar de mão esse mundo encantado onde os caras não são bonitos mas todo mundo é inacreditavelmente bom. É pra sempre que eu vou imaginar tudo antes que aconteça e quase sempre nada é tão bom quanto nos meus floreios mentais. Isso tudo não tem fim, não existe ponto, nem adianta tentar. Se a minha cabeça fosse uma torneira, eu juro que trancaria a passagem das justificativas internas pra tudo isso que me faz mal. Eu me desculpo o tempo inteiro comigo mesma por não ser aquilo que eu esperava. Tento me redimir, mas não posso simplesmente me pagar um café e estamos conversadas. Eu, lá dentro, minto tanto que já consegui enjoar desse repertório causa-erro-perdão. Eu sei, se culpar faz mal, remoer erros só faz machucar, nem precisei de terapia pra aprender. O que eu não aprendo, de jeito nenhum, é a controlar a mesmice de viver sendo sempre – e pra sempre – eu mesma.

16/07/2011

Eternidade fúnebre


Eu gosto da sua versão inteligente que cogita tudo como o fim do mundo, e da outra, jogado no sofá com preguiça da vida. Gosto da vida contigo no meu sofá. Gosto de ti na minha vida. Não é tudo a mesma coisa? Ar entrando e saindo dos pulmões, o pára-quedas nas costas e aquela translucidez em forma de alegria que me faz esquecer que não existe cordinha. Não existe manual. Ele é só a falsa segurança do “eu não vou morrer nunca”, porque eu vivo cada dia como se você fosse infinito. Como se eu fosse imortal. Daí quando você vai embora eu me dispo das inutilidades alegres, do pára-quedas me pesando os ombros. Imagino a cordinha vindo de uma nuvem e não do meu equipamento recém jogado no mar. Mergulho, afogo, sufoco. Deixo lá no fundo minhas contas velhas, minhas pulseirinhas, meus quilos de esmalte fosco. Ficam jogados na areia da praia meus percalços com a minha imaginação hiperativa. Encharcados estão meus lencinhos de papel, minhas mãos de velho, meu sofá, tu e essas outras mil coisas que me pertenciam e estão na costa esperando por resgate – assim como eu.

14/07/2011

Túmulo de indiscrições


Eu só sei falar coisas sem sentido, moço, e não sei nada sobre sentir porque desaprendi desde que vi tudo escorrer de mim. E me perdoe, eu sou só um pedaço de pele e osso porque até a carne perdi na minha falta insolente de sentimentos, até a cor perdi por causa dos meus tantos preconceitos conservados desde que mudei de vida. Deixei caído por aí meu credo, não tenho religião, não possuo nenhuma crença, me sufoco só de imaginar um Deus que possa ter amor, moço, um amor por milhões de pessoas que cruzam por mim todo dia sem me levar nenhum pedacinho.
Não choro nunca, moço, soluços me doem nos ouvidos, desprezo rimas tristes e desprezo em escala gigantesca os sofrimentos da carne. Sou pequena em si, moço, odeio as formas grandes de tudo, odeio amor gigantesco, odeio caridade, odeio pena, e as construções me causam ódio. Tudo o que eu falo e faço de bom, quebro com a destreza e concentração de um lutador daqueles fortes e grandes e odiáveis, moço, quebro porque estou quebrada em tantos cacos que são impossíveis de pegar sem se cortar também.
Só o que não quebro mais é a cara, moço, minha cara branca e curvada em remorsos de quem já se arriscou por um bem maior. E “bens maiores” me doem, moço, perdi também no meu caminho o entendimento do que isso significa. Como é que alguém se oferece para a sangria pura e simplesmente porque acredita em salvação? O que é salvação, moço, se não a nossa perda pelo que nos obrigamos a acreditar? Não acredite, moço. Duvide de tudo. Duvide de mim, de Deus, desse céu, da existência real desse instante. Duvide de você e das suas verdades mais profundas. Espete o dedo na ferida, moço, chore rios até murchar o suficiente para que ninguém mais consiga te convencer de coisa alguma, e me permita te odiar profundamente pela tua tristeza até que vires seco, assim como eu, e que se acabe tua vida de dissabores.
Enxergue o mundo com os meus olhos, moço. Apague esse dia da tua memória e apague a ti mesmo como se encontra, assim tão bonito e sorridente e feliz em teu carro esportivo e emprego e salário alto para me perguntar o que me leva a esta vida.
Sou mulher, cigana, mentirosa. Sou um túmulo de indiscrições. Sou a ironia na sua forma mais ridiculamente bela. Sou meu próprio Deus e decido meu próprio caminho, sou a frieza e sou a lágrima mais salgada. Desculpe, moço, mas sou tua angústia de não ter construído nada e essa tua percepção que te esclarece agora mesmo de que nada que tu faças, em nenhum momento da tua vida, irá tapar esse buraco entra a tua razão de ser e a dor de existir. Sou o que, a princípio, parece a mais tola mentira e se torna na mais amarga verdade. Sou o caminho sem volta porque em mim não existem rodeios, só curvas mal delineadas. Mas não tenhas medo, moço, você não precisa ser como eu se ignorar seus desamores e levantar a cabeça a cada queda. Só que eu, moço, eu nunca mais precisei cair.

03/07/2011

O imensurável


Tinha um sorriso tímido pendurado na boca, os olhos miúdos grudados no céu, as mãos finas sobre uma das pernas. Suponho que estava a pensar em um dos garotos da rua, embora não me atreva a fazer essas palavras produzirem som. Não é da minha conta, mas não posso deixar de notar seus dedinhos titubeando a marchinha que estavam a tocar na rua e pensar se esse ritmo realmente a agrada. Os olhinhos se moviam, fitavam o chão ou os sapatinhos abarrotados - com os topezinhos a enfeitar o preto liso já tão gasto e quase dono da tonalidade cinza. Não me dirigiu o olhar nenhuma vez, como se não fosse eu digno de seu tempo. Eu bem que sofria, atrás da janela emoldurada, em baixo nos seus planos de casamento. No último lugar da lista. Eu, dos mais lentos da classe, o último a somar os números, meramente interessado em unir as letras. Tão somente interessado nela e nos tons rosados das bochechinhas, que a mãe apertava com gosto. Fora eu, outros tantos com nome na lista de chamada, ansiados por sua atenção. Mergulhados no oceano de outros tantos a estranhar o corpo, a ver a mente dando mil rodeios, os olhos descontrolados entrando na saia das garotas, a falta de conversa com os pais sobre qualquer um desses assuntos entocados na jaula do oculto. Os pêlos crescentes, o corpo igualmente; os dentes entortando, a boca aprendendo a sussurrar indecências ou gritar deboches mal comportados. Ela, do alto da sua superioridade infantil, me olhando como do seu troninho feito de madeira e palha, a me mostrar com o cabelo dourado liso que meus sonhos eram tão irreais quanto irredutíveis. Expulsar um deles de mim seria o mesmo que picar minha infância e trancar numa caixa de recordações. Entre recordar ou sonhar, escolhia seguir imóvel a fitar seus olhinhos, ver ali faíscas do sol sendo refletidas naquelas janelinhas vidradas da minha paixão não percebida. Eu, já sem vergonha de trancafiar meus pensamentos mais errantes. Eu, cheio de medo da sua insensibilidade mascarada nas janelas dos meus sonhos.

02/07/2011

O criador e sua história


Louise criara uma lei própria: a de não fazer amor com Sr. Magnus quando ele chegasse depois das dezoito horas em casa. Era seu jeito de pedir mais tempo ao lado dele.
Boa parte dessas noites o senhor passava em companhia do telescópio, não a cometer o ato bobo de contar as estrelas, pois já passava as manhãs e tardes ao lado dos números e notas no banco. Gastava as madrugadas criando em seu gabinete, ao lado da janela, com pilhas de folhas sobre o colo, o destino – ou a rotina como queira chamar – do mundo.
Dona Cornélia, vizinha do apartamento frontal, tinha mania de trocar direita com esquerda. Sem a menor noção de direção, quando fora fazer exames rotineiros, lhe foi indicado “entrar na primeira sala do lado direito a enfermaria”. Tomando o rumo contrário, entrou na ala azul, que ela, por inexperiência em hospitais, não sabia ser onde ficavam os portadores de câncer.
Conhecera Luzia, moça fina, ruiva, de longas pernas e olhos sempre delineados, que todo dia tinha pesadelos e acordava com a cama em labaredas. Os olhos eram preenchidos por água que caía sobre os fios finos e frágeis que não cessavam em tombar no travesseiro. Fora até uma cabeleireira que lhe recomendara raspar tudo de uma vez e substituir as longas chamas por uma peruca mais escura, ou loira, quem sabe?
Luzia, ao mesmo tempo em que perdia os cabelos, ganhara a amizade fiel de Cornélia. Ela passara a acertar as direções, vendo Luzia no cantinho de papéis de parede azul, no lado esquerdo do hospital e do peito. Juntas, compraram uma peruca azul, para que Luzia pudesse se confundir com o céu quando lá chegasse.
Magnus pingava um ponto final na história de hoje, vendo Cornélia pentear o cabelo que branqueava na raiz. Os olhos piscavam a escorrer o mesmo que caía dos de Luzia toda manhã, no mesmo instante em que Louise decidira abrir uma exceção. Só desta vez.

27/06/2011

(re)inventando


Põe mais alegria no texto, Dona. Tira essa angustia que ele causa no fim, escreve um desses finais felizes. Tu até escreves bem, Dona, usa as palavras de um jeito que me incentiva a chegar até o fim quando eu simplesmente despenco, lendo essas tuas tragédias. Me apresenta uma personagem feliz pelo menos, me deixa conhecer uma menina dessas iguais a ti que não acabem sozinhas e desamparadas, Dona. Me aconselha Dona, como é que eu faço pra mudar um dos teus fins? Como é que eu faço pra entrar num desses teus contos e ser o sal dessa tua vida morna? Me fala, Dona, ou me explica com quem eu falo pra conseguir um posto. Me arruma um lugarzinho minúsculo na tua trama, que eu viro tua personagem principal, Dona, que eu viro a razão dos teus sorrisos. Ri pra mim, que eu te conto uma infinidade de piadas. Só não faz graça de mim, Dona, minha intenção é dessas de felicidade, não igual teus escritos cheios de pregos e felpas. Abre pra mim um espaçinho, uma linha, deixa um travessão sozinho numa página em branco do teu livro pra que eu possa falar umas coisinhas sem nexo igual teus pensamentos filosóficos. Vai, Dona, me tira do fundo do teu baú e me inventa de novo antes que eu me perca e vire só mais um dos teus rascunhos inacabados.

20/06/2011

Em carta


Acho que a gente teria muito pra conversar. Sem serem aquelas confissões chorosas, na caça de uma explicação pra ti se desculpar consigo próprio por uma decepção. Acho que amigo nunca morre pra quem o considera irmão, porque enquanto o sangue corre parece que ainda existe... Não sei, instrumentos pra se fazer um túnel do tempo.
Mas, da mesma forma que tu foste embora pra outro país, eu fiz aqui um mundo só meu. Sabe o quanto sou possessiva, tu lia no horóscopo e apontava com o dedo sujo de cola pras palavras “cuidado com o ciúme”. Adorava me dizer quais eram meus erros, acho que mesmo sem saber a resposta certa. E eu aqui, querendo poder dizer isso logo pra ti, que tanto me acusava da arte do "achismo". Eu, o tempo todo cogitando mil hipóteses e versões de mim.
Sabe que estava certo? Sempre achei de mais. Só que, agora, posso ver a certeza diante dos olhos, como te via, com o cabelo amarelo igual limão, subindo em árvores e mostrando como se faz. Escuto o som da certeza, as buzinas em volta do carro, como ouvia tua risada amistosa de deboche, que não me permitia sentir raiva nem por um segundo. E eu nem sei porquê. Nunca soube. Eu, dona de todos os ‘talvez, quem sabe’ do mundo.
Queria saber onde está, mas acho que isso não daria certo. Sempre gostou de mudar de casa com freqüência, e te descrever pra ti mesmo só não é mais tolo que escrever pra ti, por isso vou logo ao que interessa.
Queria, pela última vez, ouvir as provocações por causa dos caras magros de mais com quem eu saía, ver teu sorriso de furinho no queixo pra ironizar a fala das pessoas nas ruas. De um jeito ou de outro, se voltasse ao dia de ver-te pegando a mochila preta e correndo pra não perder o ônibus, teria te parado nem que por dois segundos pra agradecer e... pedir uma visita, dali uns cinco anos quando eu soubesse exatamente o que dizer. Como sei, desse jeito torto, agora.


13/06/2011

Resumindo-te


Não suporto seus dedos cheios de calos das noites a manusear uma caneta qualquer, nem seu cinismo mal educado. Me irritam tuas músicas que não me saem do pensamento, e até tuas faltas mal justificadas. Ultimamente, veja bem, até minhas próprias idéias - feito líquido grosso impermeável na tua cabeça – me causam incomodações, minhas histórias com toques surreais não me satisfazem mais a imaginação que, com mais calos que tuas mãos, é usada e reusada tentando achar o fim do labirinto. Qualquer barulho me tira a atenção, qualquer mentira me interessa e qualquer pessoa é capaz de me roubar o sossego. Tu me disseste, certa vez, que quando te sentia assim era por causa das dosagens de um dos teus remédios, pois não perdia tempo lendo a bula. Eu ria a procura da tua bula e, por falta dela, só aumentava minhas doses líquidas de ti. A vida sempre me presenteou com somas maiores de ironia, olha só, agora sem o remédio minha cabeça virou bomba-relógio. Tu, a me indicar outro qualquer, um desses teus amigos cheios de dinheiro no banco e ternos pretos no roupeiro, com indicações pra uso e idéias machistas completando-lhe o âmbito. Ombros abertos para o mundo, cabeça fechada pras minhas justificações pra ir embora; tu a me olhar do outro lado da rua, com um daqueles sorrisos de quem sabe tudo, mas não diz nada. Veja que seu amigo acabou sozinho a esperar um carro que o despachasse para qualquer outro lugar do mundo, o qual não precisasse conviver com tipos como eu, uma dessas feministas exageiradas. Palavras dele próprio, antes que me acuse também de mentirosa, já que chamaste minha escrita de tipicamente feudal. Com tantas ofensas poderia ter sumido da tua vida sem avisos antecedentes. Foi então que eu percebi que te avisando, não ia precisar recorrer aos teus mil e um arrependimentos vestidos de ofensas amadoras. Se for pra me pedir desculpas, prove o quanto vale ou não a pena te perdoar. Já falei: não vale nem um pouquinho te perder.

05/06/2011

sem meio termo


Reconhece uma palavra errada de longe, mas dificilmente vê o que há por trás de rostos. Ri de alguém logo de começo, mas nunca vai amar alguém à primeira vista. Fala mal porque nada lhe agrada de imediato, e, por isso, não aceita ninguém com seus defeitos mesquinhos. Corta, de forma pouco afetuosa, todo o tipo de relação que não lhe some na conta bancária e, justamente por causa desses excessos lá fora, pouco há lá dentro. Vive os domingos ao lado das notas, escuta só o som das moedas caindo umas sobre as outras, cheira só o verde que não vem da terra - e vai acabar em baixo dela sem saber o significado da palavra viver.

25/05/2011

Faminta


Teu ego gigante engolindo os castelinhos da cidade encantada onde todo mundo te ama, idolatram teus cabelos loiros boca carnuda olhos graúdos cheios de mar. Tua boca igual planta carnívora tentando encher as folhas taludas de néctar sanguíneo pra satisfazer a fome líquida que seca-lhe as sépalas, quando não satisfeita. Te molha os olhos. Umedece as mãos, nervosismo de não-principiante. Um dia enganaram-te ou você mesmo o fez, acreditou que podia engolir a rejeição de uma presa, logo depois de tantos te encherem de perfeições catalogadas. Caiu morta de folhas dobradas, tantas moscas mortas por dentro, tantos sonhos mortos no chão.

19/05/2011

Diálogo sem resposta


Eu te disse que tem gente que lê mas não , não pega cada palavrinha e transforma em uma felpa bem pequena, não junta cada frase e vai criando uma coroa cheinha de espinhos minúsculos e imperceptíveis a olhos, sensíveis na pele. E aí eu queria que você me dissesse o quanto sou dramática, me enchesse de ódio de você pra se dissipar durante os dias e cobrir nem que fosse só uma quinzena da minha vida, sem precisar te pedir as palavras que eu tanto preciso. Daí você me olhou, assim mudo, e eu pedi um zilhão de vezes repetidas pra você dizer que eu nem preciso da coroa, já sou um espinho inteiro. Que eu te incomodo, te cravo na cabeça as idéias que ninguém precisa ouvir, que eu devia me calar e contar até dez, antes de soltar mais uma das minhas perguntas insignificantes e nem um pouco plausíveis. Poderia falar que todo dia me vê no mesmo lugar em contagem regressiva, quase que inocentemente colocada perto da tua porta, pra te ver anotando mentalmente os afazeres que ocupam o meu lugar na tua cabeça. Só que você continuou sem dizer nada, e quando você não fala, me exige maior esforço mental do que nos diálogos inteiros sobre a crise que afeta a bolsa e te afeta em cheio, tua vida dependendo do dinheiro investido e a subentendida nem um pouco dependência de mim, que não sai do ar toda vez que você fala. E você não sabe o quanto eu prefiro ela à tua indiferença coberta de boas intenções pra não me magoar. Tem menos conhecimento ainda, de todas as vezes que mando as tuas intenções de menino bem criado pro inferno, te desejando um pouquinho de maldade, me colocando à disposição pra servir de objeto de tortura. Assim, como em todas as vezes que eu te vejo e que falo sem freio, tu me para com um olhar reprovador e me enche de desculpas pra ir embora sem ser dessecada pelo teu silêncio felpudo. Pego os espinhos da conversa e fecho os punhos, os olhos e os ouvidos, tranco a boca e você abre a minha ferida sem pressa, porque é assim que sempre acaba: você comigo, eu na tua rua.

13/05/2011

sempre igual


Poderia falar do meu dia cheio de injustiças semelhantes, mas pessoas não gostam de repetições. Poderia falar das minhas faltas de tempo, correrias diárias, porém leitores gostam de melancolia. Poderia explicitar minhas vontades cômodas e pouco interessantes, só que ninguém gosta do que não merece atenção. Do mundo sempre igual. Do eu de cada dia. E é por isso que a gente procura tanto por uma motivação cravada no meio do tempo, que esquece que o tempo não tem pausa pra coisa nenhuma e, pronto, perdemos a coisa. E perdemos a gente.

19/04/2011

roteiro


Era um garoto de boca pequena, nariz um tanto grande e uns olhos de vidro, transparentes como água. Com certa convivência, tornava-se bonito, graças aos olhos transbordantes e o abraço quente, mas a aparência o traía: Hector era feio. Sorria em dentes tortos, oferecendo aos outros o conforto nos seus braços, e, por vezes, acordava no meio da noite com a necessidade inflamada de mostrar consideração a quem amava, temendo no outro dia ser tarde demais. Gostava de uma garota ou outra, até que uma lhe foi tida como especial: chamava-se Laura. Não entendia o que tinha ela que tanto o atraía, mesmo que, à noite, tivesse vontade de gritar ao bairro inteiro ou falar bem baixinho no seu ouvido, o quanto queria vez ou outra, passar os dedos pelos cachos rebeldes do seu cabelo e ouvir a voz dela que engrossava, como suas pernas e os fios que antes eram loiros e agora estavam mais pra cor opaca da cabeceira da cama onde ele deitava todo dia e pedia que ela o ouvisse. Laura não ouvia. Talvez ele entendesse ao longo do tempo, o que agora não tinha trégua: amar lhe gastava as noites, vê-la lhe gastava os dias. E Laura, por tão pouco entender, só podia ver em Hector sua feiúra, suas pernas tortas e roupas doadas pela caridade. A beleza dela, ao mesmo tempo que não lhe deixava faltarem atributos a serem elogiados, os quais vinham crescendo ao longo do verão, alimentaram o amor tolo de Hector anos à fio, pela inocência – e a burrice, disse a si mesmo anos depois – da infância à dentro. O problema maior daquilo que Hector aprendeu a denominar burrice, é que quando se vai, ficam os pesos e o amargo de ter de tomar decisões. Ele pedia que Laura voltasse, mesmo que nunca o tivesse pertencido, e que fosse como era nos sonhos que ele não tinha mais; mas, certas coisas, mesmo que possíveis quando duas pessoas estão vivas e livres, não podem se realizar pela simples ordem das coisas. Não se é possível amar quem por tanto tempo não conseguiu lhe ver realmente, fora da casca, dentro de si. Portanto, mesmo que me pareça possível escrever “e se aceitaram como eram e foram felizes para sempre”, sem mais delongas, pra acabar com a agonia de Hector, alimentar com realidade os sonhos dele com as mãos compridas, as covinhas no queixo, o suor na nuca graças aos cabelos pesados pertencentes à Laura, a lógica dos fatos não me permite. Amor tem lógica sim. Hector não esperará para sempre e Laura não amaria alguém como ele, não de verdade, não com afinco, muito menos com entrega. Tem o coração mesquinho, as pernas de um metro lhe dando a magreza de uma modelo. O rosto, com ar de superior, a mentalidade que jamais admitiria um romance sem propósitos ou razão de ser. Mas, de um modo ou de outro, não há tempo também ao meu entendimento: é o que é, e o tempo arrancou da vida dos dois o que poderia ter sido. Hector crescera, aos poucos, deixando a burrice pra trás e conhecendo Catarina, Monica, Verônica, Luiza ou Luzia, tantas outras parecidas com Laura e tantas outras que lhe eram o oposto. Porém, elas passaram a se interessar por Hector, pelos crescentes tapando as faces, vergonha descobrindo o rosto em que as feições viraram marcantes. O viam na rodoviária, praça, calçadas, igreja ou arredores, a passos lentos e olhos não mais tão claros, nem com a cabeça dentro de livros procurando explicações, mas sim por fora, procurando por vida, por moças. Se bem que, ainda hoje, apostava Laura, dentro do quarto dele, entre os papéis de parede verde-água com janelas fechadas e lâmpada acesa, ainda haviam os livros espalhados pelo chão e a desordem habitual. Ela, com curiosidade, observava porque agora não tinha mais direito de ver, e o que não se pode ter nem por decreto - os tesouros mais inalcançáveis - tornam-se, de certo modo, desejáveis. Ainda temos um casal, a ordem errada, a falta de correspondência. O que nos resta ainda é a miopia resultante dos não-entendimentos: enquanto sobram amores externos, fazem falta as aproximações; Enquanto ainda houver o descaso com o interno, vamos todos falar línguas diferentes. Nós, estrangeiros de nós mesmos.

18/04/2011

sem freio


Ler certos textos quase sempre significam um risco a se assumir, porque nos dizem como ir pra bem longe, mas dificilmente nos indicam o caminho de volta. Às vezes, eu fico perdida e tão distante, que esqueço o tempo e o espaço imenso entre mim e o escritor que me foi, através de suas palavras, o meio mais rápido de locomoção pra sentir um alívio que se segue da desolação imóvel dos dias e das estradas que não acham fim.
O mundo é redondo, tudo é contínuo, a água que escorre da pedra cai no rio, vira travesseiro de pássaro no céu, fica bem cheio até cair sobre a terra e voltar pra pedra. É estranho e difícil se acostumar com essa realidade de não poder parar: tirar um cochilo da vida significa acordar de novo no último lugar da fila.
Coisa de mão beijada não tem graça, já diziam e ainda dizem os meus parentes com mais idade e menos perspectiva. Eu não conto pra eles, não conto pra ninguém.
É que às vezes, só o que eu queria, era poder dormir numa das nuvens que só servem pros pássaros descansarem nos meus sonhos, e me encolher lá em cima pedindo pra que ela nunca se enchesse pra não precisar precipitar, e nem eu, fazendo a escolha errada.
Voltando ao assunto do texto, que é ler pra viajar e tirar os pés no chão, acho que eles – os escritores roteiristas das minhas viagens – são a minha nuvem mais próxima, e nem custam caro ou precisam de água, só de mim e da minha cabeça que, por mais que eu insista com a razão que ainda tenho, não aceita e não se abaixa pra coisa alguma.
Me resta a opção de escrever mais um desses textos sem idéia nítida ou conclusão plausível, e a vontade de continuar com os devaneios. Porque hoje tudo é tão sólido, tocável, preenchido por seguranças, estética, preço, importâncias tão materiais, que, honestamente, poucas coisas ainda podem ser usadas como nuvem antes de todo mundo só querer voar de avião, correr com carro, sonhar em cima do travesseiro.

07/04/2011

Não quero esquecer


Um dia desses recebi uma notícia que não me espantou, por saber que acabaria acontecendo cedo ou tarde, mas me causou sensação de impotência e me alarmou por me fazer perceber o que eu vinha ignorando: somos tão pequenos para aprender a lidar com perdas sem volta. Antes de começar a escrever, tive a sensação de já ter lido isso mil outras vezes, em vários lugares por aí. Mas é que expor a própria indignação é diferente de apoiar a alheia. Essa situação me lembrou que, enquanto eu estava com ódio do que ninguém sabe combater, o câncer vem nos combatendo. Comendo, com fúria, o que a gente tem por dentro, mas sem ter a capacidade de nos resignar ou corroer os nossos sonhos.
Da mulher jovem que vê a própria vida definhando, do senhor idoso que perdeu a expressão do rosto após tantas cirurgias, da professora admirada que não resistiu depois de tantos anos lutando: me comovem, me levam a acreditar que as causas nobres e gastas não estão perdidas. Me levam a questionar até que ponto eu resistiria a dores tão grandes, a uma visão tão vasta de mim e tão reduzida das capacidades do meu corpo. Corpo acaba, morre, apaga. A gente ganha apenas um, e uma infinidade de oportunidades nos são lançadas de destinos a dar a ele. Nessas horas, em que a gente pensa na fome das doenças a nos destruírem, todos os comentários infelizes, erros e más interpretações que fizeram de nós, ficam pequenos. O que nós queremos deixar? Que tipo de pessoas queremos que se lembrem da gente, e em que momentos?... Nos enchemos de dúvidas sobre nós mesmos, e admiramos cada vez mais quem não se deixou abater, mesmo compartilhando dos mesmos receios que nós sobre o que tem do outro lado. O que era pra ser um desabafo sobre o descaso e outro milhão de coisas que me causam ódio, virou um pedido, um lembrete pra que eu nunca pare de dar valor e não tire da memória esses bons exemplos que restam no mundo.
Aqui, fica minha pequena homenagem aos que sofrem e se mostram capazes do que eu me pergunto todo dia se teria força suficiente de passar sem abaixar a cabeça. Aos que acabam por perder a vida, mas enquanto a tiveram, não deixaram que se perdessem os sonhos: o que vocês ganharam foi muito mais que meses ou anos somados pra viver, foram fãs. Em conseqüência disso, o que se tornaram? Eternizados.

03/04/2011

você, o terno e as flores


Um sussurro inaudível, um juramento infantil, daqueles promete que vai ser feliz por mim mesmo que sem mim do outro lado da linha, respondido por silêncios amargos de quem quer mais. Pode até demorar pra atender o telefone me respondendo que tá dormindo faz tempo, o remédio fez efeito e falar um daqueles palavrões baixinhos porque vai perder o sono, precisando de mais um comprimido, copo de whisky ou mais uma puta pra amanhã apresentar com perfeição o projeto que um bando de caras de terno d&g que nadam em dinheiro vão criticar pra no fim roubar a tua visão e construírem casas espaçosas pra gente ocupada de mais, te pagando uma ninharia que só dá pra pagar putas, remédios e whiskys.
Eu já falei pra você, larga isso tudo, compra uma kombi e vamos vender rosas nas portas de todas as casas que você desenhou, juntar dinheiro e morar no Hawaii. Viver as férias que você se promete à séculos e não tira de jeito nenhum.
Tô amaldiçoando toda vagabunda de saia menor que a sua mão que entra dia após dia pela sua porta e sai levando um pouquinho do que você passa o dia inteiro suando e reclamando pra conseguir ganhar nas mãos/bolsos/calcinhas. Tô mandando às favas as suas desculpas de que não muda de vida e não vai morar comigo numa cidadezinha com arranjos de flores nas janelas porque não tá preparado pra largar da vida agitada, do ritmo corrido, mas eu te faço rir tanto e tu me queres tão bem que não precisa acabar assim.
Existem finais felizes - até pra quem não gasta um segundo os planejando - e existe eu pra te esperar tomar jeito e todas as cervejas do bar da esquina e vir me encontrar em algum restaurante cheirando a cigarro, com vontade de vomitar toda a bebida e cuspindo toda a frustração de tanto trabalho nos meus ouvidos. Escuto tudo atentamente e te imagino sem aquela nuvenzinha de tensão pousando sobre a cabeça, a expressão irritada e o terno fedido, deitado no sofá do meu apartamento. Você briga mais uma vez, bufa que eu não te entendo e procura compreensão em alguém que pouco fale e muito faça, me larga em casa como o cavalheiro que não quer ser perto dos amigos, mas que se transforma quando pensa na sua vida daqui dois anos mais, sem mim e as minhas piadas de rosto vermelho pra te fazer esquecer tudo enquanto você me esquece.
Já adormeci inúmeras vezes enquanto você fazia círculos com o indicador na palma da minha mão explicando que com mais uns tantos meses de trabalho, compra o carro dos sonhos e depois me leva pra Flórida, Espanha e passa por cada lugarzinho que eu nem sabia que existia pra me provar que o mundo é maior que o meu quarto, eu penso pequeno, não tenho perspectiva, você diz. É que você já falou tanto e fica mais lindo a cada vez que diz a palavra perspectiva que eu já desisti de pedir pra parar e escutar que a minha maior ambição é eu, a kombi, as rosas e você, simples assim.
Eu peço mais uma vez um milhão de desculpas por te acordar no meio da noite pra saber se não conseguiu dormir de novo, mesmo que meu motivo de insônia seja você e o seu as contas à pagar no fim do mês. Desligo com o barulho oco e a vergonha por amar quando você me acorda querendo saber quem era o cara que eu andava conversando alto na rua certo dia, esquecendo o fato de que ele é meu primo.
Dou tchau pra você, me despedindo de um pedaço meu que diminui todo dia quando não tenho notícias suas e que multiplica de tamanho sempre que você me promete um minuto do seu dia, cheio de piadas amargas saltando faíscas pra contar e com a minha promessa de que tudo vai ficar melhor, o mundo é bom, as coisas mudam – menos você.